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O sabor de Pamæla Nipples

abril 30, 2010

O escritório de advocacia vinha consumindo as energias de Helen Patrícia. Foram tantas reuniões, audiências e assembléias, que ela sucumbiu a depressão. Não queria mais saber de nada, e estava cada vez mais tornando-se um mero receptáculo de esperma para o marido. Seu último resquício de prazer, ao fim do dia, era abrir o Outloook e encontrar um montante de correios urgentes para responder. A única coisa que ela ainda conseguia fazer bem era seu trabalho.

Certa madrugada, enquanto resolvia pendências administrativas em casa, recebeu um e-mail pessoal e indecente de seu ex-namorado. Algo inusitado, já que estava casa há cerca de seis anos com Avelino. Começou a ler, mas preferiu parar antes que a pilha de processos a consumisse viva. Apesar de atarefada, ela ficou com aquela coceirinha atrás da orelha… e largou tudo para ler o que ele tinha a dizer. Era tanta putaria, que ao quinto parágrafo, ela teve o orgasmo mais intenso de sua vida.

Aquela chama de outrora, entretanto, não ardeu mais que cinco minutos. Mesmo se tornando cada vez mais frígida, Helen Patrícia ainda nutria Avelino o mais profundo amor, e jamais seria capaz de trai-lo. Mas aquela sensação de gozar sem sequer tocar o próprio sexo… ah, aquela sensação a incitou a ler e escrever suas próprias perversões, no meio da noite, quando podia se deleitar com os prazeres solitários mais devassos que já experimentara. Seus dedos batiam nas teclas e as palavras pareciam masturba-la.

Daí, para criar um blog assinado por um pseudônimo, não demorou nem uma semana. Toda noite, depois de chegar do escritório e concluir suas tarefas domésticas, Helen Patrícia se transformava em Pamæla Nipples. De tão excitantes que eram seus contos, a advogada se contorcia em devaneios orgásticos, na escuridão de seu escritório. Não era raro adormecer seminua, com as pernas arreganhadas sobre os braços da cadeira acolchoada, como que se incorporasse realmente a personagem.

Na manhã seguinte, Helen Patrícia acordou com uma sensação estranha, um zumbido intermitente na cabeça. Como de costume, tomou duas aspirinas e deixou a água quente do chuveiro fazer o resto do trabalho. Já no escritório, despachou uma dezena de processos e sentiu outra vertigem, desta vez mais forte e vigorosa. Tudo começou a rodar, e as paredes tornaram-se espirais. Quando se deu conta, ela estava só de calcinha, xerocando os mamilos na frente de dois estagiários imberbes e intumescidos. Ficou tão desesperada que apagou de vez.

Avelino, que acompanhara em silêncio a depressão da esposa, foi pego de surpresa quando, naquela noite de terça-feira, Pamæla Nipples o aguardava de espartilho no balanço do condomínio. Pálido como uma vela, tentou cobri-la com seu blaser, carregando-a para dentro de casa. Helen Patrícia, que nunca havia comentado sobre seus contos pervertidos,  estava embriagada e desinibida demais: O alter ego lascivo tomara posse de seu corpo, e agora clamava por sexo.

Com o fogo de mil prostitutas ardendo dentro de seu corpo, a mulher realizou todas as fantasias do marido, que ainda não conseguia entender o motivo de tamanha transformação. Mas como estava bom para ambos, ele que não iria cometer a burrice de instaurar um interrogatório naquele momento. Treparam na sala, na cozinha, debaixo da escada, cobertos de chantilly, na banheira, dentro do carro, de ponta-cabeça, na beira da piscina, em pensamento, sobre a mesa de jantar, invertendo papéis, na frente dos cachorros, sem lubrificante e então Pamæla conseguiu compilar material suficiente para lançar um livro de contos eróticos.

O sucesso foi tão estrondoso que Pamæla Nipples, aos poucos, acabou esmaecendo a existência de Helen Patrícia. Com a promessa de um segundo livro ainda mais picante e tórrido, ela agora tinha energia de sobra para curtir a vida. Ao lado de Avelino, correu o mundo e saboreou todas as vertentes sexuais já inventadas. Foi convidada para assinar uma coluna na Marie Claire e ainda ganhou um programa de tv. Aquela mulher viveu na intensidade máxima, até o dia em que resolveu se matar, só para provar a si mesma que a morte, sim, era o mais absurdo dos orgasmos.

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3 Comentários leave one →
  1. Maria permalink
    maio 4, 2010 12:30 am

    nooooossa, precisava de um final assim? rs

    pior é que gente desse jeito tem aos montes por aí…

    bjus!

  2. maio 4, 2010 7:21 pm

    Ai, Rafael… cara, você é muito bom. Seus contos viajam demais, como você consegue isso?
    P.S: R. Pascoal é a Pamela Nipples de um pudico carioca por aí?
    P.S.2: Ri horrores da sua descrição do Bruno Mazzeo lá no blog, hahaha.

    Abração!

  3. cinebuteco permalink
    maio 6, 2010 11:40 am

    Isso é que é viver intensamente. O resto é bobagem.

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