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A fábula do farelo de milho

abril 10, 2008

Cinco pintinhos tentavam atravessar uma rua movimentada, sob sol escaldante, sem que sua mãe soubesse. Estavam ansiosos e trêmulos, pois não conseguiam chegar à calçada do outro lado, onde um sabiá teria dito haver farelo de milho em abundância e sombras refrescantes.

Numa hora, passavam ônibus. Noutra, eram malditos carros turbinados. Os bichinhos estavam quase desistindo de aventurar-se quando, por alguns instantes, a rua se acalmou. Desesperadamente, quatro deles tomaram coragem e correram o máximo que puderam, para chegar naquele paraíso.

Um dos pintinhos, mas esquio e desengonçado, teve tanto medo que congelou. Ficou de longe, entristecido, só observando os irmãos esparramando-se no farelo. Eles rolavam, batiam as asinhas e pareciam gargalhar, como se tivessem ouvido a piada mais engraçada do mundo.

Cabisbaixo e envergonhado, o pequenino decidiu voltar para o galinheiro. Encontraria alimento e calor suficientes, sob as asas da mãe, para superar aquele trauma. E esperaria, ao lado dela, pelo retorno dos irmãos, que àquela hora deveriam estar quase estourando, de tanto comer.

Era uma distância considerável, para uma caminhada solitária. Mas o pintinho desgarrado prosseguiu, mesmo com todo aquele calor. Foi pensando na vida, ruminando idéias. E lá pelas tantas, quando já estava quase a perder de vista a festança, ele deu meia-volta.

Retornou ao mesmo lugar de onde havia partido, e pôs-se a esperar pelos irmãos. Não importaria quanto tempo se passasse, ele permaneceria ali, para seguir ao lado deles ao conforto de seu lar. E já estava quase anoitecendo, quando os fanfarrões atravessaram de volta, visivelmente esturricados.

Os quatro pintinhos, surpreenderam-se ao encontrá-lo ali esperando seu retorno. Fizeram uma nova festa, pulando de alegria, cambaleantes e inchados. O pequeno, calado, só os ouvia vangloriar-se da comilança. Nunca antes tinham visto tanto farelo de milho, e estavam excitadíssimos.

E depois de tanto piar, ciscar e cagar a caminho de casa, os pintinhos festeiros finalmente perguntaram o que fizera o irmão mais novo esperar, por tanto tempo, sob aquele calor infernal, se não teve coragem de seguir até o outro lado. Ele, revirando os olhos, apontou para um gato rajado que espreitava em cima de um muro e respondeu com um muxoxo:

– Eu não comi o farelo de milho? Tudo bem! Eu não participei da festa? Tranqüilo! Mas se se vocês acham que eu seria engolido sozinho por aquele gato maldito, estão tremendamente enganados! Podem ir se adiantando na minha frente, que eu faço questão de assistir a esse espetáculo e manter minha fama de covarde, seus pela-saco!

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