Skip to content

Quase uma Afrodite

julho 28, 2010

Gerusa estava com tanto fogo na buceta que besuntou com batom vermelho seus beiços já carnudos. Ela queria dar close, ser vista, sentir-se desejada e beber um chope na Lapa. Não foi a toa que escolheu um decote bem indecente, de onde poderia exibir sem nenhum pudor os soutiens de bojo que comprara na revistinha da Avon para turbinar as tetas. Só faltava borrifar um perfuminho de alfazema e pegar o 497 na Praça das Nações.

Saltou do ônibus ajeitando a flor de plástico que prendera na juba cacheada, para dar um charme kitch e provocador na composição. Gerusa não era uma mulher bonita, mas tinha seus truques. Seguiu sorrindo para os homens, quase devassa, exalando uma inconfundível descontração. Ela costumava dizer, depois de umas cervejinhas, que se não fosse tão magra, desbancaria muitas putas e muitos travestis.

Ela chegou nos arcos esbarrando ( intencionalmente ) num grupo de rapazes. Bateu papo, jogou charme, resvalou a mão no volume que um deles ostentava sob o jeans surrado e saiu correndo, toda assanhada. Gerusa aprontou muito, beijou várias bocas, fez xixi atrás de uma Kombi. Ficou com vários meninos na escadaria do Selaron e  até  deixou rolar um clima com uma rastafari, só para dar um tapa no catiripapo que ela fumava.

Um princípio de incêndio se deu  quando o pipoqueiro a confundiu com Marisa Monte. Se havia uma coisa que Gerusa não admitia era ser confundida com aquela cantora: até concordava que não era nenhuma modelo / manequim, mas ser comparada com aquela mulher horrorosa foi a gota d’água. Acabou afogando as mágoas numa garrafa de Pitu, e acordou no gramado da Lapa com a calcinha arriada até o joelho.

Meio desorientada, verificou se estava tudo em ordem com sua teimosinha e com o toba: nada tão ardido que não agüentasse a viagem de volta para casa. Depois de recompor-se, deu uma ajeitada nos cabelos, passou mais batom para arrematar o visual e contou os trocados para, então, pegar um busão até a Central. Ela sentia-se tão viva que até cogitou a possibilidade de voltar sem nada por baixo na noite de sábado.

Para @brommelia, @humberto_silva, @mari_pimenta81 e todas as Compulses.

Anúncios
11 Comentários leave one →
  1. julho 28, 2010 6:20 pm

    “Um princípio de incêndio se deu quando o pipoqueiro a confundiu com Marisa Monte.”
    KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK!!!!!!!!!!!!!!!!!

    Ai, eu amo este blog.
    Rafael, toma vergonha na cara e publica uma coletânea destes contos, vai virar best seller.

    • julho 29, 2010 9:34 am

      Olha… o pipoqueiro até que tinha razão.
      Gerusa realmente se parece com Marisa Monte, mas não admite ser comparada com ela.

  2. julho 28, 2010 6:26 pm

    Ah, e quando vc for no “Sem Censura” pra lançar o livro vou assistir tomando café com bolo da padaria e mudando de canal no intervalo pra ver a Sônia Abrão. 😛

    • julho 29, 2010 9:37 am

      Eu adoraria lançar um livro só para ir no Sem Censura e encarar a Leda Nagle de frente.
      Nos áureos tempos onde eu ainda consegui assisti-la, mandava várias perguntinhas inusitadas, assinando com um dos meus vários pseudônimos!

  3. julho 28, 2010 6:28 pm

    Acho que já trombei com a Gerusa pelos lados da Rua Augusta, aqui em Sampa. Essa mulher é totalmente sem fronteiras. Reconheci pela descrição do cheiro…rs… Abraço, velho!

    • julho 29, 2010 9:38 am

      Gerusa é plural, tal qual a Gal.
      Está em todos os cantos, quase que onipresente.

      Agora, vamos combinar: Alfazema é cara dela, né?

  4. cinebuteco permalink
    julho 29, 2010 10:21 am

    Algo é tão O Cortiço neste post, mas eu não sei bem o que é… talvez seja esse realismo todo para decifrar Gerusa, a insaciável, hehe.

  5. julho 29, 2010 3:07 pm

    Perfeito. Dá pra sentir o som. E o perfume da Gerusa, e a revolta. Voltar sem calcinha pode ser solução enquanto a teimosinha estiver em chamas.

    Nunca fiz xixi atrás de kombi no RJ. Mas confesso que de uns tempos pra cá isso tomou um quê de aventura… muito mais do que dar um tapinha num rasta.

    E todo mundo que é parecido com alguém, ODEIA ouvir que é parecido com alguém (já sofri com isso).

    Adorei, pra variar.
    Beijo!

  6. Luiz permalink
    julho 30, 2010 12:54 am

    Hahahaha, vc sempre criando pessoas e não personagens, parece que eu vejo a Gerusa passeando toda se querendo pela Lapa, doidinha prá dar…
    Essa magrinha com cara de Marisa Monte vai longe… sem falar que a MM é cria de Madureira.

    • julho 30, 2010 8:59 am

      Marisa Monte é Portelense de nascença, assim como eu.

      Mas que Gerusa não nos ouça tecendo elogios àquela moça… rs rs

      • março 10, 2014 3:20 am

        Pelamordedeus! Ela vem pessoalmente aqui em Madureira só para dar na minha cara! Hahahahaha

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: