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Açucarada

julho 22, 2010

Diclécio e Davina conheceram-se debaixo de uma marquise, na Tijuca. Estavam ali por conta da forte tormenta que chegara de supetão no fim da tarde. Todos foram pegos desprevenidos, já estavam a caminho de casa quando a Avenida Maracanã transbordou. Os dois permaneceram ali tempo o suficiente para se apaixonarem. E então marcaram de se encontrar no dia seguinte.

Era uma quinta-feira, e novamente prometia chover. Diclécio estava empolgado com o seu primeiro encontro com a encantadora recepcionista de consultório dentário. Para tanto, comprou uma nova gravata e caprichou no perfume. Não demorou para chegar um torpedo de Davina, desmarcando o jantar por conta da chuva que já caia forte pros lados do Grajaú. Eles suspirou e respondeu com educação.

Telefonaram-se à noite, e trocaram carícias. Com a voz trêmula, a jovem de cabelos tingidos pediu desculpas pela falta, ao passo que revelou ter uma enorme dificuldade em sair de casa nos dias chuvosos. Muito polido, Diclécio a tranqüilizou, afirmando que jamais a deixaria ser lavada pela tempestade, se lhe fosse dada a chance de estar mais vezes ao seu lado. E naquela madrugada, esgotaram-se os créditos de ambos, que àquela altura já se amavam.

O dia amanheceu  encoberto, mas as nuvens foram se dissipando com o passar das horas. Davina sentiu-se à vontade e deu uma nova chance ao amor, marcando um novo encontro com seu galante admirador. Já era noite quando se avistaram, um de cada lado da rua. Ela estava de vestido branco, e ele empunhava um buquê de lírios. Diclécio sorriu e ela corou as maçãs do rosto.

Nisso surgiu um carro pipa desgovernado, que ao capotar deixou vazar boa parte de sua carga. Davina, quem diria, foi atingida em cheio pela tromba d’água e entrou em pânico. Ao vê-la se desesperar, Diclécio partiu em seu socorro, mas já não havia mais o que fazer. Ela era feita de açúcar, e por isso seu medo de chuva. Derreteu-se pelo meio-fio uma jovem incomum, deixando apenas as roupas e os sapatos.

E Diclécio, que havia jurado amar Davina até o fim de suas vidas, num piscar de olhos perdera tudo com o que mais sonhara. Naquele momento, ele não pensava em mais nada, e sequer hesitou em jogar-se ao chão para sorve-la do asfalto, doce como uma laranjada, até a última gota.

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12 Comentários leave one →
  1. julho 22, 2010 6:30 pm

    que exótico esse!
    gostei

  2. cinebuteco permalink
    julho 22, 2010 6:58 pm

    Não adianta! Quando chega a nossa hora não tem como escapar. Ela que já tinha sobrevivido a tormentas, sobrevivendo graças a uma marquise encontrou no acaso de um caminhão pipa a morte inesperada. Pobre Davina!

    • julho 29, 2010 9:56 am

      Davina não morreu, para ser bem realista.
      Ela se fundiu a Diclécio, e hoje vive diluida em seu sangue.

      Um final feliz, mesmo que por linhas tortas…

  3. julho 22, 2010 7:28 pm

    Tem mulheres que a gente bebe. Algumas, a gente regurjita. ( e ainda assim, elas insistem em estar perto, mesmo que seja na forma de sombra). Como disse, grandes crônicas aqui, irmão. Abração!

    • julho 29, 2010 9:55 am

      Diclécio bebeu de Davina até a última gota.
      Hoje ela pensa em lançar uma cachaça em sua homenagem.

  4. julho 25, 2010 12:17 pm

    Cara, que lindo esse texto… rs, sério mesmo.

    Eu tô com uma idéia engatilhada aqui, que não vou dizer qual é por conta de codornas que me COPIAM, mas quando eu publicar, você vai saber 😉

    beeeeijo!

  5. julho 28, 2010 4:22 pm

    “E naquela madrugada, esgotaram-se os créditos de ambos, que àquela altura já se amavam.” Muito suburbanismos isso.

    Confesso que fui pego de surpresa com o final. Muito bom o conto, eu já tava morrendo de saudade do blog.

    • julho 29, 2010 9:52 am

      Uma pena que eles fossem de operadoras diferentes.
      Poderiam ter economizado bastante naquela madrugada… 😉

  6. permalink
    novembro 13, 2010 9:45 pm

    Uau… Um conto gótico…

  7. pedro permalink
    dezembro 15, 2010 1:10 am

    arrepiei.

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