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Futuro a limpo

dezembro 31, 2009
O texto abaixo foi escrito por meu amigo, jornalista e compulse Rafael Carregal, como continuação do conto “Passado a limpo”, que foi publicado originalmente no Suburbanismos em dezembro de 2008.

 

Era reveillon e Rojane, este ano, como no anterior, resolveu fazer uma retrospectiva do ano que se fechava. Fuçou na gaveta do cômodo cujas prestações ainda pagaria até setembro de 2011 o mesmo caderno velho onde ainda vigorava em tinta vermelha esferográfica suas reflexões sobre 08. Sim, quanta coisa havia mudado desde então.

A começar pela festa do ano anterior. Foi lá que, sete minutos passados da meia-noite, ela abraçou, em meio a um banho de Cereser, Dinei. Este era compadre de sua vizinha pela sua filha mais velha. Terminaram a noite se agarrando na escada da laje ao som de um cd de lambafunk que alguém trouxe para trilhar a noite.

Ao contrário dos anteriores, Dinei empolgou-se com a idéia de Bonsucesso apenas seis meses adentro de seu relacionamento com Rojane. Aproveitaram a taxação de zero IPI para linha branca e mobilharam a casa toda até o fim do ano. A cada final de mês Dinei chegava com uma entrega diferente e Rojane atribuiu toda a sorte e bonança na calcinha vermelha que ela comprou no dia 29 de dezembro na Marisa, embalada por uma promoção relâmpago de rua. Usou a calcinha na virada do ano e não se arrependeu mais. É claro que o fato de Dinei trabalhar no setor de entregas do varejista e poder usufruir de um desconto de 30% para funcionários também ajudou um pouco.

A vida profissional também vai bem. O próximo sonho de Rojane é poder estudar à noite no supletivo e concluir o ensino médio em módulos. Sua prima fez e disse que foi moleza. Hoje ela é recepcionista de um consultório médico na zona sul e vai prestar concurso pra gari. Rojane a considera uma inspiração de vida – ou quase. Só não gosta de quando ela insiste para que Rojane não veja a novela das oito porque o pastor diz que TV Globo é coisa do demo.

Isso não é dizer que o ano de Rojane foi tranquilo. Não. Quase viu a morte quando um dia, a caminho do trabalho, seu trem enguiçou e a população em polvorosa fez todos saírem do vagão enquanto alguém ateava fogo na carruagem. Sentiu-se lesada ao ter que ir a pé desde Mesquita até a Central naquele dia, mas esqueceu-se de todas as mazelas no dia seguinte ao receber passagem gratuita pela SuperVia.

Este ano, Rojane e Dinei passarão o reveillon juntos. Querem fechar um ônibus com o pessoal do trabalho de Dinei que mora nas vizinhanças, chegando em Copacabana às 10h00 do dia 31. Já reservou sua calcinha vermelha e duas garrafas de Cereser – uma para beber durante o show do Lulu Santos, outra para estourar na virada. Afinal em time que se está ganhando não se mexe.

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