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Futuro do Pretérito

dezembro 31, 2011
O conto abaixo foi escrito por Andreh Santos, dando continuidade à saga de Rojane e Dinei. Para saber o que aconteceu antes, leia o conto original “Passado a limpo”, que foi publicado aqui no Suburbanismos em dezembro de 2008. Em seguida, leia “Futuro a Limpo”, que foi escrito por Rafael Carregal, em dezembro de 2009,  e  “Presente Divino” escrito por Janaína Araújo, de dezembro de 2010.

 

Rojane era uma mulher de hábitos e um deles – um dos preferidos – era anotar suas lembranças. Após a perda de seu caderninho, entre uma mamadeira e outra dos pequenos Rojnel e Dijanei, ela anotava pequenos fragmentos da sua vida em pedaços de papel de pão, notas da farmácia, comprovantes do cartão alimentação de Dinei (que ela usava pra fazer as compras no mercadinho de seu Miklécio, que tinha um olho no peixe, outro no gato) e até mesmo nos envelopes dos boletos da Leader Magazine.

Conciliando a maternidade de dois bacuris, os cuidados domésticos e uns bicos de aplicação de unhas de acrigel em casa, ao longo de todo 2011 Rojane sentia não só o cansaço físico, mas um cansaço existencial. Ela achava que sua vida já não lhe pertencia mais. Rojane sempre achou que tinha tudo pra dar certo: era simpática, gostosa, já tinha participado de dois concursos de garota da laje (no primeiro, não fez o requisito e foi eliminada, no segundo chegou na final, mas premiaram Danúbia, que tinha a bunda maior).

Faltando 3 dias pro réveillon, Rojane teve uma iluminação. Depois de 4 horas de espera na fila do posto de saúde pra tirar um caroço de feijão que Dijanei enfiou no nariz de Rojnel, ela ouviu uma testemunha de Jeová perguntando para outra em ‘treinamento’: onde você se vê daqui a 5 anos?

Com essa pergunta martelando em sua cabeça, Rojane decidiu que não ia mais olhar pra trás, pensando no que ela fez de sua vida. Ela ia olhar pra frente, ia projetar o seu futuro, como tava escrito em “O Segredo” que ela lia sentadinha na privada quando conseguia um alívio da rotina. Não ia fazer retrospectiva porra nenhuma, queria planejar sua repaginação pra 2012.

Decidida a voltar a estudar, ela precisava de alguém pra tomar conta das crianças, enquanto Dinei estava no trabalho. Nesse 2011, ela tinha retomado o supletivo em abril, mas teve que largar porque Khaeny, vizinha que cuidava dos gêmeos 3 noites por semana em troca de serviços de manicure, resolveu virar MC e cantar funk na Via Show.

Já de olho numa melhor oportunidade profissional, andou pesquisando em seu HIphone uns cursos de maquiagem no site do SENAC. Ela já tinha tentado um bico no salão Reflexu’s, mas quase deixou dona Sula careca, misturando Pinho Sol na tintura, pra ajudar a abrir a cor. A velha ficou furiosa, correu atrás de Rojane com um secador na mão por 4 quadras até desmaiar e ser levada de ambulância pro hospital do IASERJ. Rojane apareceu até no RJTV (1ª edição).

Ela decidiu também apimentar sua relação com Dinei. Além do trabalho como supervisor de entregas, Dinei pegava como segurança à noite, de quinta a domingo, no Sambola. A vida sexual deles andava um marasmo só, Dinei só chegava em casa com disposição pra comer e dormir, mas Rojane estava disposta a mudar isso. Junto com as unhas de acrigel e as maquiagens, Rojane planejava vender em casa produtos eróticos – mas sem vulgaridade, tudo refinado – e separou para sua noite de amor no réveillon o que ela chamou de kit sedução: meia calça arrastão, um par de algemas, gel lubrificante que esquenta as ‘partes íntimas’ e um espartilho bem justo, no qual ela só entrou depois porque fez jejum o dia inteiro.

Rojane, inclusive, está sonhando acordada com essa noite de amor tão esperada com Dinei. As crianças vão ficar na casa da sogra, ela e Dinei vão assistir à queima de fogos em Copa e, chegando em casa, Dinei já vai encontrar tudo preparado: espumante Aurora no balde de gelo, muitas frutas e uma cascata de chocolate alugada, lençóis de cetim (comprados na First Class da Dias da Cruz, em 16 prestações), muitas velas (de citronela, pra afastar logo o mosquito da dengue) e o kit sedução. Só vitória!

E como sonhar não custa nada, Rojane queria mesmo era sonhar alto: a tradicional calcinha vermelha pra dar sorte era nova e de seda, pra garantir muito luxo e, quem sabe, um apartamento na Barra da Tijuca em 2012.

 

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