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TPM, chiclete e vingança

agosto 4, 2010

Ercília estava a caminho do trabalho, num ônibus lotado que trafegava pela Avenida Brasil rumo ao centro da cidade. Era quarta-feira, dia de fechamento, e ela acabara de entrar na TPM. Todos os dias, ela se sentava no mesmo lugar, já que sempre era a primeira e embarcar. Ao seu lado, havia uma mulher de cabelos desgrenhados, cujo perfume  faria enjoar o mais rústicos dos estivadores. Seu nome era Hélvia, e ela não tinha motivo nenhum para ter levantado da cama tão cedo. Houve um discreto cruzamento de olhares entre elas, e a viagem continuou. Num dado momento, Hélvia tirou da boca um chiclete mastigado e ofereceu para Ercília, com um sorriso pueril e sacana emoldurando o rosto. A gerente de RH recusou prontamente a oferta, fazendo uma caretinha discreta. A perturbada, então, começou a reclamar:

“Não quer o meu chiclete porque, sua doida?!? Tá achando que eu fiz  macumba pra você perder os dentes, não tá?! Acha que eu não to te entendendo? Pois saiba que eu sou duquesa! Duquesa de Padre Miguel e comigo ninguém mexe! Tá falando o que de mim aí atrás? Hã… Não! Não sou maluca porra nenhuma, não fala isso! Eu não sou maluca! Esse chiclete eu ganhei do espírito santo, tá ungido no sangue dele! E o anjinho Gabriel foi quem mandou eu dar na boca dessa vaca, mas ela tá rejeitando! Ela não quer o chiclete do santíssimo! Vou chamar quem pra resolver essa parada? O capitão Nascimento? A Márcia? A Claudette Troiano?!? Não! Eu vou chamar é o Jorge, que me come de quatro no ferro velho e tem fama de brigão! Ela sim vai dar um jeito nessa sirigaita de uma figa! Tá me ouvindo? Não quer esse chiclete? Mesmo? Olha que eu vou engolir essa porra e o negócio vai ficar feio pro teu lado! Ah, se vai…”

A ladainha repercutiu até a Central, onde Ercília saltou junto com a maioria dos passageiros. Apesar de toda aquela loucura, a aflição que nutria desde a hora em que acordou havia sumido. Nada de TPM, ou preocupação com o fechamento das metas. Ela chegou a sorrir, quando viu uma garotinha vendendo chicletes no farol. Acabou comprando um pacote, que devorou enquanto subia a rua de seu escritório. Hélvia continuou no ônibus até o ponto final, onde optou por fazer todo o itinerário de volta. Refez o trajeto durante todo o dia, até que se cansou da viagem e resolveu saltar. Já estava quase pisando na calçada quando teve a idéia de deixar uma surpresinha para Ercília. Tirou da boca o chiclete e colou no banco cativo de Ercília, torcendo para que ela ficasse feliz com a surpresa. Depois saiu saltitante, cantarolando um pagode do grupo Molejo.

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2 Comentários leave one →
  1. agosto 4, 2010 9:42 pm

    Gente, muito bizarro. Sei lá por quê, pensei em Monique Evans.

  2. agosto 13, 2010 1:42 am

    Te falei que tá na hora de vc publicar o Suburbanismos, né? Reflexões de Um Liquidificador é um muito a cara deste blog, só que numa versão paulista… mas ó, tá na hora de pôr em cinema essas histórias. 😉

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