Skip to content

Cupom de desconto

abril 18, 2008

Raquel entrou em casa tão apressada, que nem foi cumprimentar as tias, vindas de Paquetá. Subiu a escada tropeçando pelos degraus, o que deixou sua mãe com uma pulga atrás da orelha. Normalmente tão dócil e comunicativa, a moça nunca havia se comportado de modo tão estranho, desde o maldito incidente com o piercing no períneo.

“Será que a danada está metida com tóxico? Ouvi dizer que a juventude adora fumar essa coisa de cocaína”, disse uma das tias, em tom venenoso, enquanto mastigava uma empada de palmito com a boca semi-aberta, por conta de seu rotes frouxo. Logo em seguida, bebeu um copo quase inteiro de tubaína. “Tenho pavor de morrer entalada!”
“Deve ter cheirado esmalte com as coleginhas e ficou meio perturbada, só isso!”
, retrucou a outra, antes de dar mais um gole na cerveja. “Não demora muito, ela arruma um namorado e aquieta essa facho! A não ser que pegue barriga, né? Daí você já sabe…”

Espantada, Virgínia pediu licença e levantou-se. Sua inquietação só passaria quando soubesse o que acontecera com a filha. Polidamente, subiu dois lances de escadas até que as visitas a pudessem vê-la. Parou no patamar superior, limpando com a mão o suor de nervoso que já lhe escorria pela testa. “Se essa maldita que arrumou problema, vai ficar sem Internet até o Natal”

Trancada no banheiro, Raquel já esperava pela investida da mãe, que era das mais rigorosas. Precisava pensar em uma boa desculpa para ter entrado tão abruptamente em casa, sem soar ridícula, nem infantil. Arriou a calcinha, sentou-se no vaso sanitário e, como sempre lhe acontecia em momentos de ansiedade, descarregou sua tensão.

“Raquel, abra essa porta agora. Estou mandando, não estou pedindo!!!”, exclamou a mãe, já com as bochechas avermelhadas e as têmporas latejando. “Suas tias vieram de longe para nos visitar e você faz esse papelão, Raquel? Saia agora mesmo, sua cabeça-oca. Está me ouvindo, Raquel?”

Encurralada, a rapariga – que nem era tão novinha assim – não teve outra escolha, a não ser mentir. “Tô de chico, mãe. A calcinha tá ensopada de sangue, sorte que era preta.” Virgínia ficou aliviada. “Afinal de contas, que mulher nunca ficou menstruada no caminha de volta para casa, sem um tampão para segurar o fluxo?”, explicou para as visitas, já de volta a sala de estar.

O motivo para aquele comportamento estranho, entretanto, era bem pior do que elas poderiam imaginar. Raquel fora flagrada, a plena luz do dia, trocando o preço duma calça de couro na C&A. Ao ser abordada pelos seguranças, a mocinha se desesperou e saiu em disparada, derrubando um grupo de velhinhas que descia pela escada-rolante.

Ela bem que tentou esconder-se no setor de roupas infantis, entre os pijamas de flanela, mas foi cercada pelos sagazes moços que ofereciam o cartão de crédito sem anuidade e sem juros da loja. Rendida, chorou e esperneou, mas não houve negociação. Foi levada para uma salinha, onde dois brutamontes a esperavam, com os cintos desatados.

“Quer levar aquela calça com desconto, piranha azeda? Vai ter que dar pra nós!” Ameaçaram eles, já com as calças na altura dos joelhos. Assustada, Raquel implorou por um pouco de piedade, afirmando que pagaria o preço que fosse, para se livrar daquela situação. Só que eles estavam irredutíveis, e tiraram as cuecas. Nesse instante, a moça sentiu uma forte cólica e gritou. “Pelamordeus, não faz isso que eu me cago toda!!”

Surpresos, eles vestiram-se rapidamente e a dispensaram. De vez em quando, até curtiam judiar de pequenas ladras, que tinham o fetiche de serem pegas, mas a possibilidade de ocorrer aquele tipo de fétido incidente acabou com qualquer vontade de prosseguir com a “brincadeira”. Ela correu para casa suando frio, agradecendo aos céus por ter escapado ilesa daquele pesadelo.

Depois de aliviar-se, tomou um banho e trocou de roupa. Passou um batom vermelho nos lábios, e uma borrifada de perfume no cangote. Desceu as escadas como se nada tivesse acontecido, e deu um beijo nas tias. Raquel bem que tentou se controlar, mas não conseguiu. Pediu licença, e disse que precisava resolver um probleminha no shopping. “Viu só? Tá arrumando homem na rua?” Concluiu maliciosamente a tia.

Ela, que era conhecida pelo seu atrevimento, voltou à loja, pegou as mesmas calças que haviam lhe causado tanto problema e procurou pelos seguranças, que a haviam aterrorizado. Cínica, disse que gostaria de falar a sós com os dois, naquela mesma salinha, e que não estava para brincadeiras. Ela tirou a saia, arriou a calcinha e disse: “Agora que estou limpinha, vim buscar meu desconto. Mas andem logo com isso, que eu não tenho paciência pra homem que demora a gozar.”

Anúncios
No comments yet

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: