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doce não faz mal só para os dentes

setembro 28, 2009

Ao contrário do que se pensa, Catherine não era uma criança esnobe. Nascida em berço de ouro, cercada de riqueza e ostentação, sempre fora uma menina espoleta, das que correm descalças pelo pátio de terra e ralam o joelho. Problema mesmo era com a avó Lucrecia, que fazia questão dos laçarotes de seda com renda e vestidos bem aprumados, sempre chamando atenção para os “modos”, que as meninas devem ter em qualquer ocasião.

Como seus pais estavam ocupados demais com os negócios da família, Catherine acabou desenvolvendo um carinho especial por Guaracy, sua governanta. As duas passavam boa parte do dia sozinhas, brincando de casinha. Apesar de sentir falta do carinho materno, a menina se divertia bastante com a criada, e era muito bem tratada. E foi justamente num domingo de Cosme e Damião que deu-se a tragédia.

Aproveitando que os patrões haviam saído para um brunch na praia de Santos, a governanta resolveu apresentar seu mundo à Catherine. Vestida com uma camisetinha sem mangas e shorts de flanela, a menina foi correr atrás de doces pelas ruas do subúrbio, onde Guaracy crescera, com muita humildade alegria. A bolsa a tiracolo ia crescendo à medida que ela se enturmava com o resto das crianças, e conseguia cada vez mais saquinhos recheados de guloseimas.

Cansada, mas feliz da vida, Catherine voltou dormindo no ônibus. Tomou banho de olhos fechados, e cai na cama, sem energia sequer para esperar os pais chegarem. Acordou no dia seguinte afobada para devorar seus doces. Correu para a cozinha e não encontrou ninguém. Foi até a sala, e nada. Segui na ponta dos pés até o quarto de Guaracy, mas a mulata havia partido. Com os olhos cheios de choro, deitou-se novamente e por lá ficou.

A pequena nunca soube o que realmente acontecera, mas Guaracy foi flagrada separando os de doces, na bancada da cozinha. Os seguranças a delataram. Sob tortura, depois de muito resistir, confessou que havia levado a menina para fora dos limites da mansão, e foi punida com o rigor de Dona Lucrecia. Arrancaram-lhe os olhos, as pernas e as vísceras. Sua carcaça foi jogada aos corvos e urubus. E os doces foram servidos em finíssimos cristais de murano, como se fossem especiarias para os convidados ilustres do casal.

Bonus track: Iggy Pop & Kate Pierson “Candy”

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