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Vilanias

dezembro 29, 2009

Edilásio era de família rica, e já nasceu em berço de ouro. Nunca foi de estudar, tampouco trabalhar, mas isso não o impediu de se relacionar bem com as pessoas comuns – cresceu num bairro chique da zona sul, mas tinha uma afeição toda especial pelos serviçais que moravam no subúrbio. Sua babá, Jesuína, lia repetidas vezes os contos da carochinha em versões remixadas, onde as princesas e príncipes nunca conseguiam um final feliz e amargavam até o fim dos tempos. Talvez por isso, alimentasse uma veia comunista dentro de si. Desde muito pequeno, desenvolveu uma enorme fissura em assistir folhetins transmitidos pela tv, e seus personagens favoritos, vejam bem, sempre foram os vilões mais nefastos.

Namorou algumas meninas, mas os relacionamentos nunca seguiam muito adiante, porque ora não se pareciam com a gêmea má interpretada por Glória Pires, ora não era tão ardilosas quanto a Maria Regina de Letícia Spiller. Já rapaz, gostava de jogar gamão com seu avô nos fins de tarde, porque o velho já estava chapado de uísque e ficava mais fácil levar seus maços de dinheiro. Ele adorava quando sua tia Danusa vinha almoçar nos domingos, pois seu estilo sofisticado / decadente lembrava em muito as tramóias de Laurinha Figueroa, em “Rainha da Sucata”.

Ele comemorou a banana que Marco Aurélio deu para o Brasil em “Vale Tudo”, e surtou com as tesouradas de Nazaré Tedesco. No funeral de sua mãe, Edilásio chorou copiosamente por não ter como acompanhar o desfecho de Laura, vivida pela ótima Claudia Abreu. Isso sem contar na tv de plasma que destruiu ao ver Flora enlouquecer, no final de “A Favorita”. Em seu diário, criou uma lista das vilãs para quem mais batia punhetas nas noites de estio, e Cassia Kiss ficaria ruborizada se soubesse quantas homenagens recebera por suas megeras.

Há de se dizer, contudo, que Edilásio jamais cometeu uma maldade ou crime em sua vida. Apesar da afeição pelos facínoras personagens de novelas, ele se cagava de medo quando na presença de um verdadeiro meliante. Mesmo sabendo que a impunidade reina absoluta para aqueles cujo bolsos derramam riquezas, ele viveu de acordo com a cartilha e se considerava um homem feliz. Seu sorriso só não é tão freqüente porque Manoel Carlos acredita que não existe mal depois de Ipanema.

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