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Motoca e Lambreta Universais

março 21, 2011

Amigas inseparáveis desde a primeira infância, Motoca e Lambreta eram conhecidas em toda a Tijuca como as meninas que botaram fogo no Shopping 45, com apenas quatro anos de idade. Aquelas duas gostavam de se esparramar pelos bares da praça Varnhagem e desciam das prateleiras todos os tipos de bebidas: do mais puro uísque a mais corrosiva cachaça. E há quem diga, veja bem, que embriagadas, elas reinventaram o kamasutra.

Era manhã de sábado, e depois de esvaziarem uma garrafa de Absolut no café da manhã, Lambreta resolveu que só mesmo uma igreja poderia acabar com aquele tesão que queimava as entranhas. Saíram cambaleando e entraram na primeira Universal que encontraram. O pastor Cledivaldo estava aos berros, enquanto uma mulher se contorcia no altar ( ou seria o palco, numa leitura mais apropriada? )

O exorcismo em si, não tinha muita graça. Era uma performance chocante, com direito a falas em línguas extintas e muitas referências ao inferno. Lambreta chegou a ficar sonolenta, meio que despertando a cada novo grito. O lado bom é que o pilequinho foi rapidamente esquecido, à medida que a adrenalina corria alucinadamente por suas veias azuis. Motoca estava quase prestando atenção naquele teatro quando, do nada, pipocou uma senhora do seu lado.

Com uma sacolinha de feltro vermelha, Dona Aduela recolhia o dízimo dos fiéis, prometendo o céu, as estrelas e uma vida depois da morte. As garotas, descrentes e mais duras que mendigo no carnaval, sorriram com educação e declinaram, afirmando que precisavam guardar suas economias para comprar o último LP de Ney Matogrosso. Lambreta ia soltar uma gargalhada quando, furiosa, a velha beata as aponta como criaturas endemoniadas.

O pastor, num pulo, larga a mulher contorcionista com as pernas arreganhadas sobre o altar e corre para a platéia, como faria um rock star em estase. Em poucos segundos, Cledivaldo cercara Motoca e Lambreta, desferindo golpes verbais, enquanto vários perdigotos  atingiam-lhes as ventas. Enojadas, elas bem que tentaram sair com educação daquela armadilha, mas foram impedidas pela turba de crentes revoltados.

Imperativo, o pastor as condenou ao fogo do inferno caso não pagassem de bom grado pelo dízimo que deviam. Motoca, que não valia um sacolé de Ki-suco, desmanchou-se em uma gargalhada digna de pombagira. Lambreta, logo em seguida, levou as mãos sobre a cabeça e começou a rodar em torno da amiga, fingindo estar incorporando algo ruim, como que nas coreografias da boa e velha Britney Spears.

A performance foi tão bem sucedida que até o pastor, acostumado a tanto teatro, acabou entrando na bagunça. Ele se tremia com uma odalisca, fazendo ondas com a barriga. Dona Aduela, mais centrada, limitou-se a soltar os cabelos e bater palmas. O deboche das meninas contagiou toda a horda de fies, contaminando-lhes, um a um. Em poucos minutos, a igreja inteira girava sob o batuque hipnótico da macumba remixada de Motoca e Lambreta.

Quando se deram conta da balbúrdia que haviam causado, as gurias escaparam pela multidão e se esconderam numa galeria, onde rolaram de rir, até bater aquela vontade de encher a cara mais uma vez. Sem cerimônia, abriram uma garrafa de saquê e tomaram, de canudinho, enquanto chutavam pequenos cacos de vidro na escadaria do metrô da praça Saens Pena. Nada mal, para um domingo nublado e sem jogo do Flamengo para agitar aquelas ruas…

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2 Comentários leave one →
  1. Lyna permalink
    março 21, 2011 7:28 pm

    “que não valia um sacolé de Ki-suco” = ruim não… a mulééééééstia!

  2. março 25, 2011 5:43 pm

    Eu devia ter feito igual qdo fui obrigado a assistir um culto na Universal pra faculdade uma vez. Dificil ia ser lembrar coreografia da Britney Spears. Serve Shakira?

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