Skip to content

Prioridades

agosto 15, 2011

Maria das Graças morava num barraco de madeira, no fundo do quintal de sua madrinha, em Nilópolis. Por ter nascido muito pobre, a moça não tinha muitas aspirações quanto ao futuro. Trabalhava como empregada doméstica em Copacabana, onde ganhava um salário mínimo, e uma cesta básica. Parou de estudar na primeira série, e quando lia, eram revistas de fofoca e novelas que catava pela rua. Sua dieta se resumia ao combo de salgadinho com refresco, que comia no Fornalha, antes de pegar o ônibus de volta para casa.

Eis que, certo dia, ela achou dinheiro na rua e decidiu testar a sorte: comprou duas raspadinhas, e guardou na bolsa. Parou no bar, tomou umas cervejas, cantou uns rapazes e depois seguiu cambaleando para o barraco. De banho tomado e estirada sobre a esteira que usava como berço, a mulata lembrou-se dos bilhetes. Com a ajuda de um grampo, riscou os quadrinhos da primeira, e não ganhou nem um sorrisinho. Já na segunda, ainda que descrente, veio a grande bolada: apareceram três macaquinhos e Maria das Graças levou cinco mil teresinhas!

No dia seguinte, tratou de ligar para Dona Orli, avisando que faltaria ao serviço. Depois de penar para descobrir como sacar aquela bufunfa, ela voltou quietinha para seu barraco, onde espalhou o dinheiro sobre o chão e rolou nua sobre ele, já se imaginando com uma taça de champanhe nas mãos. Riu como uma retardada, e então tratou de pensar na melhor forma de gastar a dinheirama. Poderia comprar uma casinha no morro, alugar uma quitinete, ou matricular-se num curso de datilografia. O que fazer?

Eram tantas as opções, que ela acabou se rendendo às prioridades: comprou um Tv Led, 60 polegadas, à vista. E o negócio era tão grande que nem coube no barraco – teve que ficar de lado, num dos cantos, para que o curto fio da anteninha de UHF alcançasse a sua devida entrada. Tudo encaixado, Maria das Graças se jogou na esteira e sacou o controle remoto. O único canal que ela conseguiu sintonizar foi o SBT, mas tava ótimo: nunca estivera tão perto do Chaves, em toda sua vida.

No outro dia, ligou novamente para Dona Orli, se dizendo adoentada. Depois passou no mercado e comprou cinco garrafas de Sidra Cereser, uma peça de mussarela e quinhentos gramas de salaminho. Estava mais feliz que pinto no lixo, e se achando a mulamba mais rica do pedaço. Passou o resto da tarde fazendo fotossíntese diante da tv, enquanto bebericava a Sidra numa taça de plástico. Adormeceu, levemente embriagada, e nem viu quando o fogo começou.

Ao sentir o cabelo levemente chamuscado, acordou num pulo, e viu seu barraco ardendo em chamas. Desesperada, levou as mãos à cabeça e ficou tentando encontrar um jeito de salvar suas coisas. Os documentos e fotos que guardava em cima do armário ficaram de lado. Mais uma vez, deu-se lugar às prioridades e ela resolveu salvar a tv. Àquela altura, não restava mais nada além de observar o fogo lambendo seu lar. Perdera tudo o que tinha, até mesmo o resto do dinheiro das raspadinhas, mas não estava triste. Só precisava de uma tomada para assistir a novela, sentada debaixo do pé de árvore.

Anúncios
One Comment leave one →
  1. agosto 23, 2011 4:06 pm

    felicidade é mesmo relativa!

    Parabéns Rafa.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: