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Cuidado com elas…

agosto 24, 2011

Raquel entrou em casa que nem um foguete rumo a Saturno, nem foi cumprimentar as tias que acabavam de chegar de Paquetá. Subiu as escadas tropeçando nos degraus, o que deixou sua mãe com uma pulga atrás da orelha. Normalmente tão dócil e comunicativa, a menina nunca havia se comportado de modo tão estranho.

Será que a menina está metida com tóxico?”, disse uma das tias mais venonosas. Espantada, a mãe pediu licença e levantou-se, subindo elegantemente as escadas, atrás da filha. Parou no patamar para dar um suspiro, limpando com a mão o suor que já lhe escorria pela testa. Seu rosto exibia um semblante de preocupação, igual a qualquer outra mãe.

Trancada no seu quarto, Raquel já esperava pela investida de sua mãe, irriquieta. Precisava pensar em uma boa desculpa para ter entrado tão abruptamente em casa, sem soar ridícula nem infantil. Arriou a calcinha preta e sentou-se no vaso sanitário, como sempre acontecia em momentos de ansiedade.

Menina, abra essa porta agora. Estou mandando, não estou pedindo!!!“, exclamou a mãe, já com as bochechas avermelhadas. “Suas tias vieram de longe para nos visitar e você faz esse papelão, Raquel? Saia agora e me mostre essa cabeça oca. Está me ouvindo, Raquel?

Encurralada, a menina – que nem era tão novinha assim – não teve outra escolha, a não ser mentir. “Tô de chico, mãe. A calcinha tá ensopada de sangue, sorte que era preta.” A mãe ficou aliviada, afinal. Qual mulher nunca havia ficado menstruada no caminha de volta para casa, sem um tampão para segurar a enxurrada?

Raquel ficou aliviada ao ouvir a mãe descendo as escadas, e despedindo-se das tias curiosas. Respirou fundo e soltou um sopro de alívio. Tirou cuidadosamente a camiseta preta e surrada que vestia, colocando-se entre dois grandes espelhos. Com suavidade, foi girando o corpo de modo que pudesse ver suas costas.

Death Is The Standard Breach For A Complex Prize*

Seus olhos encheram-se de lágrimas ao ver aquelas letras góticas, tatuadas com tinta preta em seu corpo alvo e franzino. Era a primeira tatuagem que ela conseguia fazer, com o dinheiro juntado durante meses a fio. Toda orgulhosa, pegou sua digicam e tirou várias fotos, publicando logo em seguida no seu blog.

Na mesma noite, Raquel ligou para Robissom, seu namorado, pedindo que ele fosse até sua casa para ver a novidade. O rapaz era um humilde ajudante de pedreiro, que mal sabia escrever o próprio nome. A mãe da menina não conseguia entender como duas pessoas tão distintas poderiam se apaixonar daquele jeito. E foi ela quem atendeu à porta, deixando-o subir até o quarto da filha.

Raquel nem teve tempo de sorrir, e Robissom já foi esmurrando sua cara. “Mulé minha não é vagabunda, não. Tatuági é coisa de piranha, vai tomá no cu!!!” Horrorizada, a mãe subiu as escadas munida de um rodo. Quando chegou no quarto, encontrou a filha se debatendo em espasmo, toda ensangüentada. Robissom, apavorado, tentou se justificar: “Ela pediu, Dona Geni. Ela pediu por isso! Olhuquê ela fez nas costa!

Muito nervosa, a mãe virou o corpo da filha, para saber o que havia de tão terrível ali. Ficou mais branca que louça sanitária quando viu aquela violação no corpo da filha, e levantou-se, completamente muda. Suas mãos tremiam, e seus olhos vagarosamente encontraram os de Robisson. Num movimento brusco e inesperado, Dona Geni perfurou a têmpora do rapaz com o rodo, derrubando-o morto no carpete.

Mãe e filha se uniram para dar um sumiço no corpo do rapaz, que foi enterrado no jardim dos fundos. Dois dias depois, Raquel [desdentada e mancando] levou Dona Geni até o estúdio do tatuador. Em menos de uma hora, a pacata senhora exibia as costas desnudas para a filha, onde se lia em letras garrafais:

Me Chama De Nazaré Tedesco

*Trecho extraído da canção “Hexagram”, dos Deftones.

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One Comment leave one →
  1. agosto 25, 2011 6:23 pm

    vi a nazaré dançando toda feliz, igual aquele gif. rs
    já viu?

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