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Uma obra inacabada

março 9, 2012

Herculano passou dez anos escrevendo contos eróticos para a revista “Big Man Internacional”, que nunca foram publicados. Colecionador alucinado, não perdia uma edição que fosse, na vã esperança de ver seu nome estampado nas páginas ilustradas que a recheavam. Comprava, inclusive, os fascículos especiais, onde só se exibiam jovens senhoras,  devidamente depiladas.

Apesar da óbvia repulsa que seu material parecia causar nos redatores da revista, ele não desistia. Incontáveis noites em claro, e centenas de cadernos pautados foram gastos, mas ele enfim conseguiu… a equipe entrou em contato, solicitando a confirmação de seus dados. Herculano só faltou soltar fogos no terraço e estourar uma Sidra Cereser.

É de se estranhar que o conto selecionado tenha sido um dos menos inspirados, dentre toda sua obra pornográfica. Havia naqueles garranchos uma certa tristeza, com pinceladas de melancolia – ao passo que também havia muita perversão no modo em que o coito era descrito. Carnal, suado, cuspido. Herculano era um gênio no que diz respeito à putaria, cujo talento fora repetidamente triturado.

Sim, Herculano só enviava seus manuscritos. Não houve cópia, nem arquivo. Quando o exemplar de março chegou às bancas, o corpo teso daquele homem tarado foi enterrado no cemitério de Irajá. Sofreu uma parada cardíaca, coisa fulminante. Jamais viu a ilustração grotesca que escolheram para estampar seu derradeiro conto.

Fato é que a publicação foi um estouro! Um sucesso de vendas, justamente por conta daquela história escrita com caneta Bic preta. Herculano foi aclamado pelos leitores, e imortalizado por toda a crítica literária. E se pudessem ler tudo o que ele escrevera nos anos anteriores, enquanto tinha força para bater uma punheta para cada modelo da revista? Ah, se pudessem ter lido…

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2 Comentários leave one →
  1. março 9, 2012 4:07 pm

    Bom e velho Suburbanismos. Sempre imagino um curta pra cada conto aqui. Ou uma série digna.

  2. março 11, 2012 11:02 pm

    infelizmente a vida é assim. muita gente e muitos trabalhos só são reconhecidos após a morte.

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