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Café e água salgada

maio 30, 2013

Se ainda não conhece a saga de Dona Eneida, leia aqui os contos anteriores.

A casa no Cachambi ficou grande demais para Dona Eneida, que fora abandonada por todos. Os filhos foram morar com o seu ex-marido no sítio de Imbariê. Rosália, a empregada, sumiu sem aviso… e até a afilhada não aparecia mais por lá. Macarronada? Omelete? Bife com batata-frita? Purê de berinjela? Salpicão? Ela poderia fazer o que bem quisesse para o almoço, que ainda sobraria para o jantar (e quiçá para o resto da semana), mas não havia mais dinheiro. Só dava para comer pão com ovo.

Desde que as lagostas pararam de subir pelo ralo, sua vida entrou numa espiral de miséria. O gato fugiu, o cachorro morreu, as paredes estavam descascando e a área de serviço ainda estava destroçada. Dona Eneida ainda sonhava com os dias de fama, quando foi convidada para cozinhar com Ana Maria Braga, participou de debates com Sonia Abrão, foi convidada para a Dança dos Famosos e até fez ponta num vídeo de Luan Santana. Depois disso, o mundo a esqueceu.

Pois bem… Lá estava ela, curtindo o amargo ostracismo, enquanto a água fervia. Pelo menos ainda tinha café. A voz de Elizeth Cardoso escapava do rádio, deixando a tarde mais melancólica e saudosa. A saudade batia forte naquele peito sufocado, o nó na garganta só fazia aumentar, e Dona Eneida debulhou-se em lágrimas. Depois tocou “Bandeira Branca”, com Dalva de Oliveira, e o chão pareceu ruir…

Cansada e sonolenta, Dona Eneida nem percebeu que a casa estava afundando, silenciosamente, para dentro da terra. O Cachambi também não notou, e no fim da tarde havia um endereço a menos na Rua Honório. Ficou um buraco, onde não se via fim, não se via nada. Canos e fios brotavam da terra, assim como as raízes da amendoeira que, pouco a pouco, destruíam a calçada.

Dona Eneida acordou com água batendo no queixo, na mais completa escuridão. Frio congelando o pouco ar que restava. Com um pouco de esforço, conseguiu subir na pia, onde alcançou o pote com velas e fósforos, que ficava sobre o armário. A luz era fraca, mas suficiente para mostrar que sua casa não estava mais onde deveria. A vela apagou, e então começaram os estalos. Pode parecer estranho, mas ela não se desesperou. Sua consciência passou a funcionar no reverso, depois espalhou-se para todos os lados.

Lagostas surgiram, novamente, entrando pelas frestas. Eram milhares, e eram avermelhadas. Cobriram todo o corpo de Dona Eneida, assim como tudo que havia ao seu redor. Mais estalos, dessa vez mais fortes. Ferro se contorcendo, concreto dissolvido. A água subia cada vez mais, salgada, fervilhando. O pinguim de porcelana boiava desesperadamente, enquanto tudo era compactado, e então acabou. Não havia mais nada, a não ser a mão de Cthulhu, convidando-a para se tornar sereia.

As lagostas pareciam aplaudir. Não se sabe, ao certo.

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