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Capriel e Rosiclair

julho 31, 2013

Carregando uma prancheta, um bloco de A3 e seu estojo de desenho, Capriel chegou em casa suando frio. Rosiclair, a empregada, estava limpando o rejunte do piso da sala quando foi abordada pelo jovem, que tinha na voz um tremor impaciente.

– Tira a roupa, Rosiclair.

– Oi?

– Tira a roupa, que eu vou te desenhar!

– Menino, você tá louco? Sou paga para limpar a casa e…

– Tira-a-porra-da-roupa, Rosiclair! Não vou repetir outra vez!

– Mas pra quê isso? Tá drogado, é? Vou ligar agora mesmo para a sua…

– Não mete minha mãe no meio! Tira essa camiseta, anda!

– Ou o quê? Vai me jogar pela varanda?

– É urgente, Rosiclair! Preciso entregar esse trabalho na faculdade…

– Ah, porque não falou antes? Você quer que eu “pouse” pra você?

– Quem pousa é avião. Você só vai ficar quietinha e pelada, Rosiclair.

– Ui, tá nervosinho!

– Tira a cal-ci-nha!

– Não, a calcinha fica! Não quero que você fique aí me desejando…

– Rosiclair, eu não te desejaria nem que fosse a última buceta desse mundo!

– Ah, é? Então não vai desenhar porra nenhuma!

– Olha só, eu preciso entregar esse desenho hoje, senão fico reprovado em desenho anatômico!

– Então pede com educação!

– Você poderia, por favor, tirar a calcinha e fazer uma pose.

– Tá. E como você quer que eu “seje”?

– Sensual sem ser vulgar.

– Dedinho na boca?

– Pode ser. Mas fecha essas pernas, que tem um bife saindo aí de você.

– Ih, tá de onda comigo?

– Não, Rosiclair. Agora fica caladinha pra eu terminar isso rápido.

– Tá legal. Vou Ficar quieta.

Dez minutos depois, Capriel suspirou. Não parecia feliz com o resultado, e tentou novamente. Rosiclair permaneceu quietinha, tossindo vez ou outra, mas por puro nervosismo. O garoto revirou o estojo, amassou a folha em que havia desenhado e jogou no lixo. A empregada, atônita, quebrou o silêncio.

Que porra é essa? Vai jogar no lixo?

– Não ficou bom!

– Mas sou eu, pelada, Capriel! As pessoas vão saber!

– Só se revirarem o lixo, né? Agora muda a pose, olha ali para o lustre!

– Não! Eu quero ver esse desenho! Me dá essa lata de lixo…

– Por favor, Rosiclair. Volta pra poltrona!

– De jeito nenhum! Acabou a palhaçada, Capriel!

– Impressão minha ou sua calcinha tá com uma freada?

– O qu…

– Toda cagada! Que horror, Rosiclair!

– Foi um acidente! Só tinha açaí com banana e…

– Vou ligar, a-go-rinha, pra minha mãe! Ela vai adorar saber que v…

Tomada pela fúria de duzentas ratazanas no cio, Rosiclair voou para cima de Capriel, derrubando-o sobre da banqueta. Com a mesma agilidade que limpava o limo nos azulejos do banheiro, ela conseguiu imobilizá-lo e sentou em sua cara.

– Sente o cheiro desse rabo sujo, seu filho da puta! Passei anos lavando suas roupas de cama, seu punheteiro! Ficavam tão duras que eu podia quebrar! Que-brar!! Agora vem tirar onda com a minha cara? Não pediu para me ver pelada? Agora você aprende a ser homem.

E naquele dia, Capriel não só perdeu a virgindade como também fez o melhor desenho de sua vida. Ele e a empregada começaram a namorar em segredo, e sua única exigência era que ela estivesse sempre com aquele mesmo ranço de bunda. O amor tem disso, e ninguém pode julgar.

 

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