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Quem ri por último?

novembro 17, 2014

A amizade entre Pedro e Belarmino nunca foi um mar-de-rosas. Todos sabiam que os dois não batiam bem das idéias, apesar de andarem sempre juntos. Quando não estavam dividindo uma cerveja e celebrando o ócio, certamente eram encontrados aos tapas, por conta de alguma jogada maliciosa na pelada ou carteado. Mais do mesmo e assim seguiam com suas vidas medíocres.

Certo dia, durante um churrasco na casa de Zé Rolinha, romperam de vez. Dessa vez, no entanto, não houve briga, nem pontapé. É que os dois estavam interessados pela mesma rapariga, Caroline, e descobriram isso quando ela, dengosa e matreira, determinou que só iria para os trâmites finais com aquele que lhe trouxesse o pratinho mais cheio de carne, além da garrafinha de Smirnoff Ice, é claro.

Belarmino, sempre mais ágil e bom de papo, saiu vitorioso: conseguiu asinha de frango, carne de porco, lingüiça e picanha, com um pouco de molho vinagrete. Carregou o bendito troféu de coxas roliças e cabelos cacheados para sua quitinete, onde prometeu realizar loucuras, aos brados, para quem quisesse ouvir. Pedro, desolado, afundou-se na bebida e tragou dois maços inteiros de cigarros. Perambulou sozinho e resmungão pelas ruas empoeiradas de Santíssimo até que, lá pelo meio da madrugada, decidiu ir para casa.

Na manhã seguinte, sofrendo dos terríveis efeitos da ressaca, Pedro acordou com o barulho das sirenes e o falatório do povo. Calçou as chinelas e debruçou na janela, de onde teve uma noção do inferno que ali havia sido instaurado. A rua estava um fervo, com polícia, ambulância e até mesmo reportagem. E o foco de todas as atenções era a maldita quitinete de Belarmino, onde todos acreditavam ser uma filial de Sodoma e Gomorra.

Curioso, vestiu uma camiseta amarrotada e foi atrás de alguma vizinha fuxiqueira. Naquela rua eram várias, que saberiam tim-tim por tim-tim do ocorrido, e ainda aumentariam um cadinho, só pra descontrair. E não deu noutra. Foi Dona Neide, viúva de militar e cega de um olho, que contou com riqueza de detalhes o que havia sucedido naquele casebre, depois da churrascada.

Ao que tudo indicava, Belarmino não deu no couro, e a biscate ficou enfezada. Houve quebra-quebra e muito xingamento. Caroline queria ser preenchida, e ameaçou jogar-se nos braços (e demais membros) de Pedro, que a idolatrava tanto quanto o concorrente, mas certamente colocaria as bolas na caçapa. Não restou sequer um bibelô de porcelana na estante para contar a história, ao passo que a rapariga ficou sem os dentes e com uma costela quebrada.

Ao ver seu desafeto algemado, vestindo apenas uma cuequinha puída, Pedro sorriu. E do sorriso fez-se uma gargalhada histérica e descontrolada. Ele foi ao chão, rolou de rir com as mãos na barriga e os olhos em lágrimas. Riu tanto que se engasgou, e só não sufocou por que Dona Neide o socorreu. No fim das contas, ninguém comeu ninguém, mas o churrasco do Zé Rolinha rola todo domingo.

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