Skip to content

Tudo a seu tempo

maio 25, 2007

Eu ponho o pé na rua e noto que esqueci o celular em cima da cama. É nisso que dá sair às pressas, sem tempo pra tomar café da manhã e nem escovar os dentes. Preciso tirar o cadeado do portão, abrir o ferrolho, subir três lances de escada, destrancar a porta do meu apartamento e pegar o maldito telefone lá no quarto. Até cogito deixá-lo em casa, mas não… Vai que acontece alguma coisa? Não quero nem pensar na hipótese!

Perco quase dez minutos com essa brincadeira, e provavelmente, o ônibus das seis e quinze. Se eu corresse… Bem… Quase nunca chego atrasado no serviço, então resolvo me dar ao luxo, somente hoje, de não sair destrambelhado pelas ruas. Pego o próximo coletivo, com calma, sem correria. Melhor assim, não fico suado e ainda consigo comprar um sanduíche para forrar o estômago.

Até pensei na possibilidade de morar no Centro do Rio, num daqueles conjugados, perto da empresa. Só que eu estou enraizado no subúrbio. Nasci aqui, sempre morei neste bairro. Sei o nome de todas as ruas, dos vizinhos e até dos seus cachorros. Não sei se conseguiria me acostumar com outro lugar, onde as pessoas se trombam nos elevadores e fazem de conta que nada aconteceu.

Desço a ladeira com calma, respirando o ar gelado da manhã. Ouço o canto de canários, melros e bem-te-vis. Uma sensação de alívio me percorre todo o corpo, e quase interrompo a caminhada para admirar tudo isso. Sempre passo tão apressado por aqui que nem tinha percebido quão magníficas e cheias de vida estão as árvores de minha rua. Suas copas, volumosas, juntam-se em arcos perfeitos, emoldurando a perspectiva como que num quadro impressionista. E pensar que meus amigos insistem dizer que não há árvores no subúrbio…

O ônibus demora a passar, e como eu já suspeitava, chega lotado. Que saco! Se eu tivesse conseguido sair no horário de sempre, viajaria sentado, conversando com aquela belíssima morena que, a qualquer momento, aceitaria meu convite para jantar. Mas não, o trajeto leva o dobro do tempo previsto, por conta de um acidente na seletiva. Meu atraso ganha, então, proporções cada vez mais catastróficas!

Ao entrar no escritório, tento não dar muita bandeira e passar despercebido. Chego mudo, caminho em linha reta até minha sala, e sinto o patrão me fuzilando com os olhos. Aquele maldito não admite atrasos, nem desculpas. Só fica lá, esparramado em sua cadeira, ditando ordens desconexas e cobrando serviços inexistentes. Qualquer dia dou-lhe uma resposta torta, e ele vai ver só o que é bom…

O sanduíche, que eu esperava comer durante a viagem, acabou esfriando. E quem ouvisse, poderia jurar que meu estômago estava urrando de fome. Utilizo, então, um recurso muito difundido dentre os nerds, que varam a madrugada de frente para o computador: perfuro o papel laminado com a lapiseira e coloco meu lanche para esquentar no calor do monitor. É demorado e ridículo, eu sei, mas funciona.

Num certo dia, já pensei em fazer essa experiência com líquidos, também. Café, para ser mais exato. Só que para não levar tanto tempo e agilizar o processo, eu derramaria o conteúdo pelas frestas de onde sai o calor, deixando-o passar pelo tubo de imagem e outros componentes. Daí era só esperar cair pela parte de baixo, com o copinho estrategicamente posicionado. É claro que nunca colocaria essa idéia em prática, a menos que estivesse disposto a ser demitido por destruição de patrimônio alheio…

Dou início ao meu expediente, cuidando de alguns assuntos pessoais e jogando no lixo alguns memorandos inúteis. Confiro meus e-mails, atualizo o blog e depois leio alguns sites de notícias. E nesse exato momento, sinto uma flechada no peito. Uma dor lancinante que me derruba da cadeira, caindo aos prantos no piso acarpetado. Tudo por conta de uma daquelas notícias que lemos diariamente, mas não damos a menor trela. Só que, hoje, é diferente…

O tal acidente na pista de descida para o Centro envolveu o ônibus das seis e quinze. Aquele mesmo, que eu perdi por conta do celular. Não dizem detalhes do que teria causado tamanha desgraça, mas houve vítimas fatais. Meus olhos ficam marejados, e me dou conta de que poderia estar envolvido na tragédia.

Tranco a porta, e permito que as lágrimas rolem pelo meu rosto. Entro em desespero, sinto a garganta sufocar e quase perco os sentidos. Qualquer pessoa ficaria aliviada ao pensar que, por um descuido, escapara de uma fatalidade. Mas eu não… Eu deveria estar naquele ônibus. Eu deveria ter morrido, e escapei ileso. Por um bom tempo, fico encolhido num canto, soluçando…

Alguns minutos se passam e eu consigo me acalmar. Dou um gole no café, recomponho-me. Até tento retomar o trabalho, mas aquela sensação de angústia me corrói a alma. Invento uma desculpa qualquer e peço dispensa para o resto do dia. O rosto inchado e os olhos vermelhos me servem de álibi. Ninguém se atreve a questionar meus motivos.

Volto para casa, com uma forte dor de cabeça e um tanto desorientado. Tomo um banho quente e me acomodo na varanda, onde acendo um cigarro e deixo a mente esmaecer. Tento me convencer de que foi um milagre, um presságio que me salvou da morte certa. Jogo a bituca com um peteleco, e procuro o maço. Minhas mãos trêmulas mal conseguem segurar o isqueiro. E então, meu coração dispara.

A morena, meu Deus!! Como pude me esquecer da morena? Teria escapado ilesa? Ela, que sempre embarcava no segundo ponto depois do meu. Mas que merda! Levei semanas para conseguir superar minha timidez e trocar algumas palavras. E se ela morreu? Não, ela não pode ter morrido. Talvez alguns arranhões, nada demais.

Numa certa altura, dou-me conta de que não adianta especular. É melhor cair na cama e dormir, até a manhã seguinte. Isso mesmo! Tomo um calmante, desses que derrubam até elefante, e me enfio debaixo das cobertas. E pensar que eu sequer sei o nome daquela mulher…

Ajusto o despertador para vinte minutos antes do habitual. Não posso perder o ônibus das seis e quinze, quero estar lá bem antes disso. A ansiedade vai se diluindo, e eu fico sonolento. Meus olhos parecem estar cobertos de areia e começo a afundar no travesseiro. Ouço o som da minha respiração aumentando gradativamente, transformando-se num ronco leve. Vem à minha cabeça a imagem daquela morena entrando no ônibus dizendo, toda sorridente, que adoraria jantar comigo. E então durmo…

Anúncios
No comments yet

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: