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Cem por cento aos teus pés

maio 28, 2007

Jéssica estava desolada. Numa única semana havia perdido o emprego, o noivo e o capítulo final da novela. Foram lágrimas tão profusas que quase escorriam pelas ladeiras do Cachambi. Um verdadeiro drama. Na vitrola, Jane Duboc cantando repetidas vezes a mesma música, embalando a tristeza e ecoando por todo o quarteirão.

Numa manhã nublada, junto com a correspondência, Jéssica encontrou o panfleto de uma mãe-de-santo. Muito conhecida naquela região, Dalcira de Inhansã era garantia de um trabalho bem feito. Já havia curado umbigueira de recém-nascido, casamento desfeito e até mesmo perna cotó. Era tão competente e sofisticada que aceitava pagamento em cartão de crédito e realizava, inclusive, consultas online.

Num primeiro momento, Jéssica fez que nem tinha lido tal anúncio. Nunca foi de acreditar em macumba, não seria agora, em pleno desespero, que iria. Olhou para o porta-retratos e viu a face de seu homem… Bateu então uma coceira nas ventas, que acabou por lhe mudar idéias. Empolgada, colocou um vestido bem justo e lambuzou os lábios com batom vermelho. Já estava até vendo: sairia do terreiro de braços dados com o ex-futuro-noivo.

Tão perto era, que foi a caminhar. Deixava o vento atravessar os cabelos crespos e balançava as ancas, sentindo-se tremendamente sedutora. Pegaria aquele homem pelo colarinho e faria misérias, com a certeza de que, agora, ele não poderia lhe escapar. Chegou na porta do terreiro e viu uma enorme placa, com o desenho quase abstrato de uma negra envolta em panos brancos, onde se lia:

Dalcira de Inhansã, mãe-de-santo e consultora espiritual.
Traz o homem amado de volta em até três dias
100% aos seus pés e de mais ninguém
Consultas 24h por dia
Aceitamos cheque, cartão de crédito e vale refeição

Depois de aguardar duas horas e meia, tendo lido um romance de banca quase inteiro, finalmente foi recebida pela velha negra. Colocou sobre a mesa uma foto de seu homem, uma cueca usada, meias suadas e até uns fios de cabelo que haviam ficado presos na escova. Pediu a Dalcira que o trouxesse de volta naquele mesmo dia, custasse o que for.

A mãe-de-santo, girando os olhos e fumando um cigarro de palha, disse que não precisava de nada daquilo. Gemeu algumas palavras desconexas, arregalou os olhos e perguntou se ela só o queria de volta. Jéssica respondeu que sim! Isso era tudo que ela queria, naquele momento.

– Mas você quer, digamos, 100% aos teus pés? Pra não ser de mais ninguém?

O corpo de Jéssica tremeu em uníssono. Um sorriso quase lhe rompeu as bochechas, e ela assentiu com a cabeça, freneticamente, batendo as palmas das mãos e sacolejando as pernas. O que poderia ser melhor do que, além de ter o homem de volta em menos de três dias? Tê-lo cem por cento aos seus pés, loucamente apaixonado, pedindo beijos e chamegos!

Com seu consentimento, a negra velha começou os trabalhos. Voltou a gemer, com os olhos em turbilhão, e repentinamente, interrompeu. Disse, com os ombros balançando, que era preciso fazer a oferta, senão o trabalho não teria garantias. Jéssica tirou uma nota de dez e colocou sobre a bancada. Mas os espíritos recusaram. Aquilo ali não curava nem mal cheiro de fimose, quem dirá amor desfeito.

Depois de muito negociar, fechou o trabalho em setecentos dinheiros, parcelados em cinco vezes no crédito, com juros do cartão. Para ser tão caro, pensou ela, deve ser batata! E a mãe-de-santo anunciou, enfim, que estava feito. Aquele homem seria dela, novamente e para todo o sempre. Cem por cento aos seus pés. E de mais ninguém.

Agradecendo efusivamente, Jéssica deixou o terreiro e, para seu espanto, o avistou. Era demais para ser verdade… Do outro lado da rua, comendo um churrasquinho misto, lá estava ele! Vestindo a mesma camiseta surrada com estampa militar e os shorts vermelhos, que ressaltavam suas coxas robustas. E aquele rosto, com marcas de espinhas e o cavanhaque mal desenhado…

– Severino, meu cabra-macho! Olheuaqui, toda sua!

Ao ouvir tamanho escândalo, o homem pôs-se a correr e, apavorado, foi violentamente atingido por um caminhão de lixo, que vinha na contra-mão. O impacto fez com que seu corpo ricocheteasse e caísse bem na frente de Jéssica, inerte, sem vida. Ela berrou, e voltou correndo para o terreiro.

– Ele morreu! Ele morreu aos meus pés, caralho! Não era isso que eu queria!

A velha nem chegou a tirar o cigarro da boca e sorriu. Do sorriso, formou-se uma gargalhada. Ela colocava as mãos na barriga e sacolejava. As meninas que a ajudavam também sorriam, matreiras. Jéssica, revoltada, não conseguia entender a graça naquilo.

– Não pediu ele de volta, cem por cento aos teus pés?! Então, vai dizer que o trabalho não foi feito? Ele não pode ser de mais ninguém…

Jéssica parou por alguns segundos, raciocinou e acabou concordando com aquela lógica. Limpou as lágrimas, agradeceu a atenção e pediu desculpas por qualquer inconveniência. Agora, só precisaria dar um jeito de arrumar emprego e comprar um videocassete, para gravar as novelas. Voltou para casa, saltitante, chupando um sacolé de leite-condensado. Tirou o vestido, colocou um compacto do Menudo para tocar e dançou, alegremente, madrugada adentro.

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One Comment leave one →
  1. março 18, 2011 10:29 am

    desculpa nem li o post
    é que aquilo do save a prayer e a marca de batom e tudo foi tão lindo e eu gosto tanto dessas coisas únicas que não deu pra não comentar
    de verdade
    foi gostoso saber isso

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