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Nasce uma estrela

junho 7, 2007

Joelma terminou de preparar o ensopadinho de lingüiça com batatas e resolveu acompanhar Holavo, seu marido, que iria assistir ao jogo do Flamengo no botequim da esquina, com alguns amigos. Não que ela gostasse de futebol, muito pelo contrário. A dona-de-casa se amarrava era no karaokê de lá. Como os clientes pagantes tinham o direito de cantar à vontade, ela nunca se fez de boba e sempre soltava a voz. Desde pequena ela tinha o sonho de ser famosa, e esse pequeno espetáculo já lhe bastava, tipo que um prêmio de consolação.

Como de costume, ninguém cantava, e Joelma seria a única a segurar o microfone. Quanta alegria: sua voz iria reverberar sozinha por toda a noite, ecoando por entre os gritos másculos daqueles que só conseguiam tirar os olhos do televisor CCE de vinte polegadas para pedir mais uma rodada de cerveja. Por mais de quarenta minutos, a empolgada cantora desafinou, gesticulou e se esgoelou, como que estivesse em sua turnê mundial. Triste foi interpretar seus maiores sucessos e não receber nem uma salva de palmas, a não ser o olhar de reprovação do marido, que a fuzilava com um leve menear de pálpebras. Mas ela era guerreira, cantaria mais uma canção. Se era para irritar, que fosse com aquela música da Tetê Espíndola, que todo mundo conhece e adora odiar.

Aparentemente, o jogo estava tão mais interessante, que nem mesmo o Holavo percebeu seus falsetes ensurdecedores. Isso deixou Joelma terrivelmente enraivecida, com um leve tremor nas têmporas. Depois de tantos meses ensaiando com sua banda imaginária, uma estrela de tamanha grandeza não se deixaria abalar pela falta de entusiasmo do público… Até que o Flamengo marcou um gol de placa, bem no último refrão da música. Joelma respirou fundo e deixou o microfone escorregar pela mão, segurando-o pelo fio. Visivelmente transtornada, ela começou a girar sua arma improvisada, como se fosse uma guerreira enlouquecida da idade média. Correu na direção do marido e o acertou em cheio, bem no meio das ventas. O microfone se despedaçou com o impacto, assim como a testa do infeliz se esvaiu em sangue. Ela sorriu com o canto da boca, jogou os cabelos, inclinou-se para a platéia e fez um gesto delicado com a mão, agradecendo pela atenção de todos.

Desacordado, o pobre senhor nem pode presenciar o fim do espetáculo, quando sua amada esposa destruiu todo o botequim num acesso de fúria, típico de rockstars. Testemunhas insistem em dizer que Joelma parecia ter incorporado um daqueles monstros gigantes de seriado japonês, gritando palavras desconexas e se descabelando como uma macaca vadia. A única coisa que ela poupou foi o aparelho de Karaokê, já que na semana seguinte ela iria retornar da clínica de reabilitação, com um novo repertório e visual repaginado.

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