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carta de um moribundo

julho 4, 2008

Caros amigos,

Escrevo para dizer que os médicos trouxeram-me más notícias. Parece que o tratamento não surtiu o efeito esperado, e só me restam algumas poucas horas de vida. Na verdade, eles nem precisavam vir dizer nada, pois já sinto a alma descolando de minha carne, inclusive. É uma sensação ímpar, que só perde em intesidade para o boquete guloso de Melinda, que nos lê em cópia. Desculpe, Maurício, pela falta de respeito para com sua esposa, mas eu preciso deixar registrado aqui, para todo o sempre: foi a melhor mamada de minha vida. E só para não gerar conflitos desnecessários, garanto que foi antes de vocês se casarem, quando ela ainda curtia varar a noite na Lapa com nossa turma de faculdade.

Aproveito o gancho para pedir desculpas ao Paulo Ricardo, por ter me envolvido com sua esposa, durante aquele período em que você esteve fisicamente impossibilitado. Sei que isso irá doe rmuito em você, mas acredite: doeu bastante nela também. Foi a melhor solução para saciar os anseios de Regina, que estava a ponto de se entregar a qualquer indigente para ter um resquício de prazer. Se descobrirem, por ventura, que o caçulinha é meu filho, peçam para meu advogado incluí-lo no espólio. Sempre achei que o moleque tinha algo meu…

Cátia, minha linda. Esperei muito tempo para te contar, mas enfim: fui eu quem convenceu o Pedro Ernesto a te largar. Já não agüentava mais ouvir aquele chato reclamando de seu estilo de vida, de seu jeito solto, sua mente aberta, de seu brilho lascivo de flertar com homens de peito peludo e barba cerrada. Mesmo que você jure de pés juntos que ele era o homem de sua vida, saiba que o maldito não valia de nada. Um tremendo borra-botas, que deu o fora antes mesmo de confirmar todas as mentiras cabeludas que contei a teu respeito. E só para constar: sabes que sempre apreciei teus artesanatos?

Marcely, faz tempo que não nos falamos. É uma pena. Mas vou te dizer o motivo: você esqueceu de crescer. Já tens quase quarenta anos e ainda fala como se fosse uma garotinha de quinze, cheia de tatibitates e livros de auto-ajuda. Aposto que, desculpe-me antecipadamente, sequer encontrou alguém que fosse capaz de arrancar-te o cabaço. Estou certo, ou estou errado? Você é um ótima pessoa, querida, mas é preciso entender que o tempo passa. O tempo voa. E você acabou ficando para titia.

Igor, meu irmão. Espero que você seja muito feliz, depois de tanto esconder seus mais secretos anseios sexuais. Foi muito doloroso quando descobri que você se casou com aquele colombiano, sem ao menos me convidar para a cerimônia. Vocês dividiam aquele apartamento há, o que, nove anos? Espero que consigam mesmo adotar aquela criancinha que tanto querem. Seria ótimo termos alguém de outra etnia em nossa linhagem, apesar da vovó ser contra esse tipo de coisa. Mas ninguém vai saber mesmo, né? Viu só, como eu fui capaz de guardar seu segredo até o dia de minha morte?

E por último, mas não menos importante, Karen, minha querida esposa. Para você, não tenho nada importante a dizer, além do corriqueiro “ eu te amo”. Que deus te proteja da ira que causei a tudo e a todos. Perdoe se te deixo um fardo muito grande, mas sei que serás capaz de cobrir todas as divídas com suas atividades místicas e um pouco de força de vontade.

Sinto que já é hora, pessoal. Os dedos começam a fraquejar, e ainda preciso ir ao banheiro me permitir um último momento de prazer.

Vejo vocês em outra vida, onde seremos todos gatos rajados, catando espinhas de peixe numa lata de lixo. Como nos desenhos animados.

Roberto.

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