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preto no branco

junho 16, 2008

Marcus Paolo era um rapaz de família rica e tradicional, nascido em berço de ouro. Morador de um luxuoso condomínio na Barra da Tijuca, gostava de freqüentar bailes funk no subúrbio, onde podia “misturar-se aos plebeus”, como dizia sua avó Hercília, recentemente acometida pela demência . E foi em plena quadra da Chatuba, na Penha, que ele conheceu Chandelle, uma negra estonteante, de curvas voluptuosas, olhos castanhos e cabelos anelados.

Eles trocaram olhares pela primeira vez na fila da Caipvodka, quando Chandelle pediu um “pau-na-coxa” com bastante leite condensado. Aquele flerte malicioso foi o suficiente para encorajar o rapaz a segurá-la pelo braço e sussurrar uma cantada batida ao pé do ouvido. Ela levou o dedo mindinho à boca e sorriu. Beijaram-se sofregamente numa viela escura, onde trocaram fluídos corporais à exaustão, e já estavam apaixonados antes do amanhecer.

Pela primeira vez em sua vida, Marcus estava sentindo o etéreo torpor de quem ama. Quis levar sua conquista para um lugar mais íntimo e reservado, onde poderiam entregar-se aos prazeres carnais até que seus corpos caíssem inertes, mas ela declinou: tinha de estudar para uma prova, tratar das madeixas e fazer manicure – tarefas que todas as meninas de família costumam deixar para os domingos, antes da missa vespertina. Ele, plangente, não insistiu, mas prometeu telefonar.

A garota, que morava no Rocha, teve sensações conflitantes no caminho de casa. Estava apaixonada por Marcus, isso era fato, mas tinha medo da reação do pai. É que Seu Agnaldo sempre fora totalmente contrário à idéia de miscigenação em sua família, e também detestava a burquesia emergente da Barra. Envolta em desesperança, Chandelle optou por não atender as ligações de Marcus Paolo, antes que seu coração fosse arrebatado por aquela paixão.

O rapaz, porém, não aceitou as escusas da amada, e bradou a plenos pulmões, que enfrentaria qualquer obstáculo para tê-la em seus braços novamente. Chandelle foi convencida de que valeria a pena enfrentar as rédeas tesas de seu pai para viver aquele amor, e marcou um encontro com Marcus Paolo para saciarem a saudade.

Passaram horas tramando um plano, para que o namoro fosse abençoado pelas famílias de ambos, mas nada parecia suficientemente perfeito. Ele cogitou fugir para outro país, mas a moça não achou a idéia atraente. “Tu podia tomar um banho de piche, para ficar preto também”, cantarolou Chandelle, e então Marcus deu um salto, com os olhos esbugalhados, precipitando-se contra o muro.

Exaltado, o rapaz pediu para que Chandelle o esperasse, em nome do amor que compartilhavam, pois uma grande idéia havia brotado em sua mente. Algo monumental, nunca antes visto nas histórias de amor. Comovida, ela consentiu e deu-lhe um beijo. Esperaria o tempo que fosse, para sacramentar definitivamente aquele amor. Marcus Paolo partiu, afirmando que voltaria com uma solução irrefutável, e que viveriam felizes para todo o sempre.

Duas semanas se passaram, sem que chegassem notícias do rapaz. Até que, num sábado de céu estrelado, Marcus Paolo tocou a campainha do apartamento de Chandelle, de surpresa. Ao abrir a porta, a moça tomou um susto e apavorou-se, soltando um grito de desespero, prontamente abafado pela boca do rapaz. Lá estava ele, completamente pintado de preto, com um sorriso escancarado no rosto, segurando um buquê de rosas amarelas.

A explicação veio em seguida, quando Chandelle recuperou-se, na medida do possível, daquele terrível susto. Ele ofereceu-lhe um pacote de balas e começou a contar como fora o processo de transformação. Valendo-se da fortuna inesgotável da qual sua família dispunha, Marcus Paolo contratou oito dos mais competentes tatuadores conhecidos, e seguiu para a clínica do pai, onde tomou uma anestesia geral e passou doze horas cobrindo o corpo com tinta preta. Todas as dobras, todas as mucosas, todas as entranhas. Tudo preto, em nome do amor contundente que sentia por aquela rapariga.

Depois de ouvir toda aquela fábula, Chandelle respirou fundo e olhou para a bizarra combinação da pele artificialmente escurecida com os cabelos naturalmente ruivos do rapaz. Sem ruminar, bateu com as mãos nos joelhos e pôs fim ao namoro, ali mesmo, na escadaria do prédio. Marcus, debulhando-se em lágrimas, não conseguia entender o que acabara de acontecer. Justificou-se, afirmando que fizera um verdadeiro sacrifício por ela, mas a negativa permaneceu incólume. “Só amor não basta”, murmurou ela, secamente, pedindo que o rapaz a deixasse em paz.

Desesperado, ele ficou gritando da rua: “Porque é que só o amor não basta? Porque é que só o amor não basta?”. Os vizinhos já estavam tacando-lhe tomates e ovos podres, quando ela respondeu: “O amor é igual ao capim, Marcus Paolo. Você planta, cuida, ele cresce e aí vem outra vaca e come”. Ninguém, nem mesmo a vizinha do 319, compreendeu o que ela quis dizer com aquilo, mas o rapaz sumiu dali, vencido pela vergonha.

Chandelle bateu a janela, fechou as cortinas, colocou um disco de Chico Buarque na vitrola, chorou até engasgar-se e morreu. Sua mãe encontrou uma bala soft entalada na garganta, mas algumas pessoas acreditam que tenha sido mandinga daquele escurinho a quem ela fez ingratidão. Não se sabe ao certo.

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