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Intelectualmente incongruentes

outubro 8, 2009

Dalcira forrou a mesa com uma toalha de crochê, parou um pouco para observar o caimento das dobras e suspirou com um sorriso. Depois, distribuiu as cadeiras em forma de semi-círculo, limpou as bandejas de prata e poliu os copos de cristal. As cortinas foram escovadas, para não levantar poeira caso alguém resolvesse ligar o ventilador de teto. Infelizmente, o ar-condicionado não ficou pronto ao tempo, mas também não fazia calor. Naquela noite, a empolgada professora de ioga receberia um grupo de intelectuais e amigos, inaugurando um clubinho fechado onde discutiriam artes, filosofia, política, questões ambientais e problemas da metafísica.

Com o cair da noite, as pessoas começaram a chegar, estacionando seus luxuosos carros na calçada de pedras portuguesas. Regina levou um pacote de biscoitos amanteigados e alguns livros de poesia medieval. Orlêncio apareceu com uma quiche de beterraba marroquina e dois artigos inéditos sobre a nova linha de pensamento na psicanálise. Ecila chegou com um cavelete, papéis de alta gramatura e inúmeros crayons, além de seu inseparável whisky importado. Um pouco mais tarde, quem deu o ar da graça foi Odorico, trazendo um estudo sobre o novo cenário político-social do Rio de Janeiro, além de um pote com vegetais orgânicos em conserva.

Comeram e beberam até não saberem mais discernir suas próprias palavras. A reunião transformou-se num falatório sem o menor sentido, onde cada um ansiava pelo posto de umbigo mais centrado do mundo. Todos se expunham, mas ninguém se ouvia. Exceto por Ariclê, que era surda mesmo e ficou sentada num canto, esculpindo eunucos alados nas almofadas de madeira que adornavam a porta da sala da jantar. Dalcira, que já não conseguia mais absorver tanta informação, acabou gritando como um louca, batendo com os pés no piso de sinteco. O silêncio, então, impregnou-se pelas paredes. Todos permaneceram boquiabertos, até que a anfitriã resolveu quebrar o gelo.

Com a delicadeza que lhe é costumeira, ela seguiu até o receiver e colocou um cd no player. Em seguida, foi ao centro da sala e agachou-se sobre o tapete persa, que ganhara de presente em um amigo-oculto da academia. Dos auto-falantes, uma batida de funk pesado começou a tocar, e a dona da casa contorceu as pernas ao redor do corpo como uma lacraia no álcool. Tomada por uma vontade insana de causar rebuliço, ela foi empolgando seus convidados com uma ginga sensual. A princípio, alguns mostraram-se incomodados, mas por volta de meia noite, estavam todos com a mãozinha no joelho e dedinho na boca, descendo até o chão, para deixar a galera louca.

No fim das contas, todos se divertiram e saíram de lá com a barriga cheia. Mas de intelectual mesmo, ficou só a promessa vazia e imaculada. Dalcira não se queixou de nada, pois finalmente conseguiu se livrar do pudor que a impedia de quebrar paradigmas. Na semana seguinte, ficaram de marcar um novo encontro, e ela já começou a pensar no que poderia fazer para conseguir, mais uma vez, sobressair-se dentre os demais e ainda ser vista como uma pessoa agradável, bem quista. Pensou em servir o leite espesso que vertia abundantemente de seus seios, mesmo não estando grávida, mas lembrou-se que Ecila tinha intolerância a lactose. Sim, ela precisava de outra idéia, mas por hora se concentraria em organizar sua coleção de miniaturas pornográficas.

Bonus track: Gaiola das Popozudas “Proibidão”

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