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Dia das crianças ou trauma para toda a vida

outubro 13, 2009

Até mais que o Natal, Adelino ansiava mesmo era pelo dia das crianças. Comportou-se bem nas festas, tirou boas notas em matemática e até cuidou do aquário que ganhara da bisavó, sem que um peixe tenha morrido, sequer: só não deixou de puxar o cabelo da irmã, pois quem a conhece sabe que é impossível não se enfurecer com tanta manha e pirraça. Ele era merecedor de um presentão e não se conteve ao ver aquele embrulho enorme sobre a mesa da sala. Quase chorou ao ouvir que só poderia abri-lo depois do churrasco, quando todos já tivessem almoçado. Aflito, acabou batendo um prato de arroz com maionese em menos de cinco minutos. Depois, caiu no sofá, exausto de tanto esperar.

Acordou babando na almofada, com o barulho de papel sendo rasgado e gritos de alegria. Cambaleou em direção a sala até ver que toda a pirralhada estava em festa, com seus novos brinquedos, bonecas e triciclos. O coração de Adelino quase pulou pela boca, quando viu a mãe trazendo seu tão esperado presente. Em poucos segundos, ele desfez os laços e desembrulhou uma amarga surpresa. Aos nove anos de idade, o menino teve seu primeiro grande baque. Foi quando, precocemente, perdeu sua inocência pueril e sentiu o dissabor tão comum a vida adulta.

Diferente do que havia imaginado, ali estava a enciclopédia de seu tio avô, que morrera esclerosado num asilo em Barra de Piraí. Não era um ferrorama, nem um carinho de controle remoto. Ao todo, vinte e cinco livros, ricamente ilustrados. Nem de perto o que sonhara, Adelino também não conseguiu segurar: foi às lágrimas. Seu pai, com orgulho, pensou que o menino estava emocionado. Mas não, era desespero. Naquele exato momento, ele optara por fazer daquilo uma lição de vida. Largou a infância e leu todos os volumes, repetidas vezes, até prestar exames para a universidade.

Cursou medicina, graduou-se em primeiro lugar, especializou-se em neurologia, abriu seu próprio consultório e casou-se com uma garota que conheceu no doutorado. Tiveram dois filhos, e foram muito felizes. Quando seu primogênito completou dez anos, recebeu de presente a enciclopédia, que tanto tempo depois ainda mantinha seu aspecto original. Um cheiro de nostalgia tomou a sala. O mesmo silêncio agora via-se estampado no rosto do menino. No dia seguinte deram falta de Adelino. Ele havia desaparecido, assim como o ferrorama e o carrinho de controle remoto. Na fatura do cartão de crédito, uma viagem para a Disney… Finalmente ele tinha reencontrado sua infância perdia. E a felicidade que perdera por tantos e tantos anos.

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