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O sapo, a cigana, a dona de casa e o fim do mundo

abril 21, 2010

Ao puxar a mão antes que uma Cigana a tocasse, Cleydianna foi amaldiçoada. Naquela noite, quando preparava uma omelete para Rosivaldo, deu-se o inferno em sua vida. No que estalou o primeiro ovo na frigideira, ao invés de gema e clara, pulou um olho banhando em sangue lá de dentro. Do segundo ovo, eclodiu uma baba verde e fétida. E no que abriu o terceiro, encontrou um sapo a coaxar baixinho o seu nome. O pretendente, ressabiado, foi-se embora antes que a paquera terminasse em morte. Ela, descabelando-se, concluiu o inevitável: só podia ser mandinga da danada!

Histérica, notou que sua bunda começava a latejar, de tão inchada. Imediatamente, ligou para uma benzedeira 24h – indicação de sua prima Antônia, que foi curada de erisipela, coqueluche, torcicolo e oxiúros pela própria dita cuja. Em questão de minutos chegou a velha corcunda, cujo cheiro de arruda não deixava dúvidas: era batata, de tão certeira! Cleydianna pagou em espécie pelo trabalho de amarração, tamanho seu receio de transformar-se em babuíno. Queria ver o diabo que atazanava sua vida sair dali numa garrafa da aguardente, se possível: que assim fosse. Houve grito, houve medo, houve enxofre e deu-se a luz.

Livre do encanto, e ungida pela feitiçaria nordestina, Cleydianna voltou ao ponto de ônibus onde aquela Cigana tinha o costume de abordar os transeuntes. Com seu vestido pomposo, cheio de babados, rendas e fitas coloridas, lá estava ela: lendo um futuro incerto na palma das mãos alheias. Empunhando um crucifixo como quem comete a felação em pleno cio, a dona de casa rezou três ave marias e confrontou sua antagonista. Foi um bate-boca digno de novela mesmo, com direito a tapa na cara, mão no culote, xingamento censurado e dedos apontados tal qual espadas bem afiadas.

Não houve sangue por força do acaso, pois em seus olhos só se via morte. Os desaforos estavam começando a perder o foco quando, do alto de uma aroeira, caiu o sapo falante que nascera do ovo profano. Desta vez, entretanto, não foi o nome de Cleydianna que ele sussurrou, e sim uma profecia apocalíptica. Arrebatadas pela devastadora revelação, as rivais uniram-se em nome de algo maior: no dia seguinte foi inaugurada a Igreja Triangular do Cristo Ungido pelo Coachar.

Com fiéis vindos de todos os cantos da cidade, a Cigana pastora pregava um futuro de provações e esperanças vazias, enquanto a outra amamentava o sapo num altar improvisado. A congregação cresceu e disseminou-se, chegando a outros estados e até paises. Todos se acotovelavam nos cultos divinos, pois queriam ter a chance de tocar no anfíbio profeta. Os seguidores veneravam-no como um novo Cristo, e deliravam a cada novo coachar. A receita só desandou quando, por instinto, o bicho mijou na cara de Cleydianna. Tomada pelo ódio, e levemente embriagada, ela o eviscerou e fritou em banha fervente. Depois comeu suas patinhas em sinal de sacrifício.

Não demorou para que a notícia se espalhasse entre os fiéis. A Cigana,  descontrolada, girava em torno de si mesma para evocar a alma do sapo.  As ruas, tomadas por fanáticos religiosos, transformaram-se em praças de guerra. A turba enfurecida conseguiu arrombar as portas do templo sagrado e esquartejou Cleydianna (que sorriu em delírio ao ver o deus sapo num brejo paradisíaco) . Em questão de minutos, bombas explodiram em vários cantos do mundo. Vulcões explodiram, deixando o céu em chamas. O efeito dominó espalhou-se descontroladamente, consumindo a humanidade e extinguindo a própria existência. A profecia concretizou-se, mas os ciganos ainda dançavam sobre a lava fervente, em adoração eterna àquela que indiretamente fez da Terra o novo Sol.

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6 Comentários leave one →
  1. abril 23, 2010 1:28 am

    Nossa, tenho mil suburbanismos pra por em dia. Vou comentar todos depois.
    Besos Rafael!

  2. cinebuteco permalink
    abril 23, 2010 10:02 pm

    Nossa! Que viagem… misturou um monte de coisa e deu nesse texto… ainda assim muito engraçado. Parabéns!!!

  3. abril 29, 2010 8:55 pm

    Gente, o que você anda consumindo Rafael? Hehehe…
    Eu tenho que tirar o chapéu pro capricho com que vc tá criticando as religiões. Acho digno.
    😉

    • abril 30, 2010 9:34 am

      Só notei que estava numa fase “religiosa” ao ler seu comentário.
      Melhor mudar um pouco os temas, senão o povo diz que não sou digno em Cristo… rs

  4. abril 30, 2010 7:13 pm

    Hahaha, não se reprima, pode continuar descendo a lenha.

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