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O milagre que veio do oitavo andar

abril 24, 2010

Adotado por um casal muito certinho, que fazia de tudo para vê-lo feliz e saudável, Alejandro quase não dava trabalho. Tratavam-no como uma verdadeiro reizinho, mimado até na hora do banho, com direito a patinho de borracha e shampoo do Mickey: “Cadê o neném? Cadê o neném?” repetiam insistentemente para que o pequeno soltasse um sorriso. Aquele seria seu primeiro Natal como membro de uma família, e apesar de não entender muita coisa, ele parecia excitado com toda a movimentação na casa que agora era também seu lar. Luzes piscando na varanda, cd natalino da Simone no shuffle, e uma mesa repleta de flores, frutas e comidas exóticas. “Papai Noel vai trazer presentes pro Alejandro? Vaaaaaaaaaaaaaaaaai” exclamava a mãe com sua voz estridente.  Em apenas dois anos de vida, o menino nunca tivera tantas coisas à sua disposição, e isso o deixava compreensivelmente agitado.

Numa distração dos adultos, ele foi sozinho para a varanda na ilusão de que veria o tal Papai Noel chegar com seu trenó, mas acabou por prender a cabeça no gradil, e lá ficou choromingando. Do alto, ele só conseguia ver os apartamentos vizinhos e a garagem vazia, o que acabou por entretê-lo durante o tempo em que conseguiu manter-se acordado. Alucinados com os preparativos para a festa, os pais do menino nem se deram conta do seu sumiço: continuaram dourando o pernil e atochando cerejas no chester, ao passo que se empolgavam a cada refrão: “Então é nataaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaal, e o que você feeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeez? Que seja feliiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiz queeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeem, souber o que é o beeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeim”

Com o barulho dos fogos, Alejandro despertou e ainda estava com a cabeça presa na grade. Esperneou um pouco, mas ninguém o ouviu. Não havia outra opção, a não ser esperar pele… neve? Sim, estava nevando no Grajaú. E o garoto ficou tão feliz com a novidade que conseguiu se soltar da grade, escapulindo pelo lado de fora. Moravam no oitavo andar, e lá estava ele, pendurado pela alça dos suspensórios, enquanto juntava flocos de neve na mãozinha, para mostrar aos pais. A vizinha bêbada do sétimo andar já estava pra lá de bagdá quando o viu ali, naquela situação desesperadora: “Caralho, ta nevando mesmo? E esse é o menino Jesus?!”

Com um cabo de vassoura, ela cutucou várias vezes na tentativa de traze-lo para dentro, mas o menino se contorcia com as cócegas. Encheu mais um copo de uísque e ficou pensando no que poderia fazer para tira-lo dali. Desacostumada com os rituais natalinos, acabou ligando para o porteiro: “O menino Jesus ta na minha varanda, mas eu não consigo fazer nada. Espero até meia noite pra tentar de novo?” O silêncio do outro da lado da linha não a convenceu, e com um banquinho, ela se arriscou sobre o gradil para apanha-lo. “Garoto maldito! Caiu do céu e ainda vem dar trabalho, mas tudo bem. É Natal e eu vou te ajudar”

O suspensório de Alejandro finalmente cedeu e a vizinha de baixo o levou para a sala. Passaram-se uns quinze minutos e a bêbada não parava de investiga-lo, na esperança de realizasse algum milagre ou passasse alguma mensagem de paz: “Como é que funciona isso de ser o menino Jesus? Só rola mágica depois da meia noite?”. Lembrou-se, então, da cesta que havia recebido como brinde da empresa, e a colocou sobre a mesinha. Remexeu um pouco da palha, amontoando-a nas bordas para que o menino se sentisse numa manjedoura. “Vai, transforma em vinho!” repetiu inúmeras vezes, apontando para o garrafão dágua. “Quero ver se você é fodão, mesmo.”

No andar de cima, os pais finalmente deram falta do menino e correram por todo o apartamento à sua procura. Desesperada, a mãe foi a varanda e começou a gritar por Alejandro: “Meu deus, está nevando? Cadê você, neném?” Ao ouvi-la desesperar-se, o menino sorriu e apontou para o alto, instigando a lucidez da vizinha. “Você quer voar, seu danado? Não vai me transformar nem um copinho de vinho? Bom… eu sabia que essa porra de milagre não era minha praia mesmo…” E com a pouca coordenação que ainda lhe restava, ela atirou Alejandro janela afora e gritou “Veio com defeito mesmo! Toma de volta que eu não quero mais não!”

Um rajada de vento jogou Alejandro nos braços de sua mãe adotiva, fazendo daquele Natal um verdadeiro milagre. Comemoraram com lágrimas e mais Simone, até adormecerem sobre o panetone. Meses depois, a vizinha alcoolatra estava saindo do elevador quando esbarrou na família abençoada. O menino sorriu e apontou para a latinha de cerveja que ela bebia. Não se sabe como, mas o líquido se transformou em mijo. Numa cusparada só, ela conjurou todas as maldições do mundo, sem nunca imaginar que o pequeno tinha, sim, poderes divinos. Ele cresceu e tornou-se um mártir do mundo moderno, mas isso é história pra se contar num outro momento.

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8 Comentários leave one →
  1. abril 26, 2010 11:11 am

    adorei a bêbada.

  2. cinebuteco permalink
    abril 27, 2010 6:41 pm

    Abismado com sua capacidade inventiva… nevar no grajaú em dezembro? é ruuuuuuim.

  3. abril 28, 2010 4:38 pm

    O mais fantástico é mesmo nevar no Grajaú.

    Abraços.

  4. abril 29, 2010 8:52 pm

    “cd natalino da Simone no shuffle”, hahahahhaha!!!!

    Ai, Rafael, faço minhas as palavras do Fernando. Tô pra ver mente mais criativa.

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