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Crônica de um vampiro suburbano

junho 11, 2010

A pedido de sua filha mais nova, Astolfo remarcou o churrasco de sábado para o finalzinho da tarde. Bem acima do peso e com cabelos tingidos de preto, Gabrielle aproveitaria a ocasião para apresentar seu namorado, que por razões dispersas só poderia chegar à noite para a festa. Sua mãe, sempre amável e prestativa, mostrou-se positivamente inflamada com a chegada do genro: apressou os quitutes da sobremesa e encomendou mais dois quilos de alcatra.

– Papai, este é o Lupicínio, meu namorado.

Apesar de já ter passado por isso antes, Astolfo precisou segurar a respiração por alguns segundos. Sua vontade era esmagar o calhorda, mas pelo bem de todos e felicidade geral da família, ele seguraria sua fúria. O rapaz era franzino, branco como uma vela, vestia preto e ainda tinha um ar sorumbático. E como se isso já não fosse o bastante, o frangote ainda respondia a tudo e forma evasiva.

– Diga-me, Lupicío… você não é um desses malditos vampiros, né?

Gabrielle sentiu o rosto congelar… Nunca imaginou que seu pai seria capaz de questiona-lo sobre esse tipo de coisa. E ainda pior, na frente de toda a família. Houve um certo constrangimento, pois o rapaz olhava de soslaio para todos ao invés de manifestar qualquer tipo de reação. Depois de alguns instantes, a gordinha resolveu esclarecer tudo de uma vez e dar continuidade à festa.

– Imagina, pai! Ele não é vamp…

– Sim, eu sou um vampiro, Sr. Astolfo. Algum problema nisso?

– Não, de forma alguma! Desde que não chupe minha filha! Que fique bem claro!

Merlise, no papel de anfitriã, precisou intervir a favor do marido. Deu um beijo no genro, segurou-lhe as mãos e abençoou o enlace dos jovens. E ainda completou, afirmando que Astolfo também nutria grande estima por quem sua filha tivesse tamanho amor. Lupicínio mostrou-se tranqüilo e agradeceu pela cortesia, levantando um copo de vinho.

– Um brinde a Gabrielle, Dona Merlise e ao Sr, Astolfo pelo banquete!

Sentaram-se todos à mesa, e deu-se a comilança. Uns não sabiam dizer se vampiros podiam comer, outros achavam que o alho da farofa acabaria com o maldito. Astolfo desejava, bem lá dentro, que o genro se entalasse com uma asinha de frango. Havia um misto de sensações, algo entre a admiração e o horror entre os convidados. Lupicínio mostrou-se tão humano quanto qualquer um ali, servindo seu prato com bastante carne mal passada.

– O alho está na medida certa, uma delícia! É, de longe, uma das melhores refeições que já tive!

E a gordinha respirou aliviada, percebendo que vários mitos a respeito dos vampiros eram por demais fantasiosos. Ele podia beber o que quisesse, comer como qualquer um, vestir-se da maneira que melhor expressasse seu estilo e ainda gostava de alho. Gabrielle só não sabia que, infelizmente, eles ainda eram vulneráveis a prata. Ao pegar a bandeja onde estavam os corações de frango, Lupicínio explodiu num piscar de olhos. Suas cinzas espalharam-se sobre todos, e Astolfo sorriu. Bendito o dia em que deixou Merlise comprar aquela maldita prataria na Mesbla!

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2 Comentários leave one →
  1. Mariany permalink
    outubro 24, 2010 11:48 am

    Você tem muita criatividade! Essa crônica está maravilhosa, pena que o vampiro explodiu…Sucesso

    • outubro 24, 2010 12:26 pm

      Obrigado, Mariany! Continue lendo, pois em breve teremos mais contos de vampiros.
      E eu prometo não explodir mais algum… rs rs

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