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Mojo

junho 29, 2010

Zélia tirou da bolsa um drops de menta, daqueles que são vendidos nos cinemas. Ficou na dúvida se deveria, ou não, esperar nua debaixo dos lençois, pois o ar condicionado estava ligado no máximo. Chupou duas balas antes de Evailson sair do banho, e resolveu deixar para que ele mesmo a despisse. Primeiro com os olhos, depois com as mãos rudes de estivador. Matreira, ficou só de corset, rolando pelo carpete, tal qual uma gata no cio – na verdade, havia bebido duas doses de absinto antes de sair de casa, mas não chegou a contar isso ao seu companheiro de concupiscência para não desvirtuar o clima de sacanagem que envolvia toda a situação. Depois do divorcio, passou alguns anos sem se relacionar com outros homens e estava sentindo-se enferrujada. Cultivou uma paixão solitária por si mesma, e passou a escrever uma série de contos eróticos, os quais publicava com enorme sucesso numa revista feminina ( e por muitas vezes “ista”).

Estava sem boas idéias naquela semana, e os prazos começavam a ficar mais curtos. Não tinha nada de muito interessante para ser enviado ao editor dentre os textos que mantinha reservados numa caixa vermelha, à beira da escrivaninha. Aqueles, mais intimistas e rebuscados, só sairiam dali anos mais tarde, numa compilação de obras inéditas: pois sim, ela planejava publicar seus escritos num livro de lombada quadrada e ganhar muito dinheiro com as vendas. Naquele momento, entretanto, ela precisava urgentemente de um plot. E a melhor solução foi vive-lo. Seria uma aventura erótica, com pinceladas de romantismo e clima de entrega total. Sabe-se lá como, a partir desse escopo rascunhado numa folha solta de caderno, Zélia foi parar no cais do porto, calçando escarpin vermelho e uma vontade uterina de ser brutalmente preenchida por alguém que jamais esbarraria ao acaso.

Ele estava debruçado sobre um container, com a camiseta encharcada de suor. Não demorou muito para que Zélia o abordasse: fingiu estar perdida e até forçou algumas lágrimas. Apresentou-se como Terezinha, e forjou toda uma vida fictícia para embasar sua aventura. Apesar de bruto, Evailson era um homem que sabia como fazer uma mulher feliz, e tinha fama de envolve-las somente com o olhar. Foi só ela dar brecha que o brutamontes roubou-lhe um beijo. E dali para o motel, foram a pé. Um muquifo, se comparado aos que a madame costumava freqüentar em seus flertes de outrora. Naquele momento, entretanto, era mais do que apropriado. Ela provou o gosto de seu beijo suburbano, regozijou com sua pegada firme, gozou litros de tensão acumulada e ainda recuperou seu mojo perdido.

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5 Comentários leave one →
  1. junho 29, 2010 2:14 pm

    Será que depois a gente vai ter acesso ao artigo que Zélia precisa enviar para os editores? Este texto promete, hein?

  2. junho 29, 2010 8:52 pm

    Zélia escreve pra NOVA??? Ou pra MARIE CLAIRE???
    Adorei! Confesso que fiquei levemente excitado, rs.

    Detalhe, e eu li o texto inteiro achando que tinha algo a ver com miojo. Depois que li o título direito (dã!).

    • junho 30, 2010 10:10 am

      Miojo?!?
      Taí uma coisa que Zélia jamais comeria!

      E quanto a revista, não posso revelar o nome.
      Zélia jamais permitiria que eu revelasse seu verdadeira identidade… 😉

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