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Lá de fora…

julho 13, 2010

No dia em que completou 15 anos, Venise foi chamada para uma conversa reservada com seus pais. Ela já estava crescida, preparando-se para o vestibular, e  pensou que eles queriam falar sobre sexo e preservativos. De início ratearam, quase desistiram. Depois foram preparando o terreno até despejarem, de sopetão, tudo aquilo que sempre temeram revelar sobre suas origens: “Nós somos alienígenas, minha filha. Viemos dos confins do universo em busca de novos alimentos e um estilo de vida mais ameno!”

Para quem crescera no bairro de Vila Isabel, estudando num colégio para normalistas, a idéia de ser alienígena já era algo bem familiar. Venise sempre se sentira diferente das coleguinhas, e  nunca conseguiu entender o que tanto viam de bom na baile funk que rolava na quadra do Salgueiro. A jovem meio que tentou debochar do assunto, mas eles reiteraram: “Não temos anteninhas, nem caudas pontiagudas, mas estamos longe de sermos terráqueos”

Por alguns instantes, Venise permaneceu estática. Seus pais explicaram que a nave onde estavam caiu em uma clareira da floresta da Tijuca, onde passaram dezesseis anos vivendo em uma gruta. O casal assimilou tudo o que pôde da vida terrena.alimentando-se com o cérebro de pessoas que se perdiam na mata. Depois aproveitaram-se da clarividência para enriquecerem às custas da loteria.  “E se vocês ficaram tão ricos, porque é que não fomos morar na Barra, ou no Leblon?” questionou a adolescente.

A conversa transformou-se em discussão, e depois de duas horas descambou para a briga. Com toda a razão, Venise determinou que a festa de sábado fosse cancelada. Saiu batendo a porta, e foi para a rua. Deus algumas voltas no quarteirão, ruminou toda aquela balburdia, comeu um salgadinho com refresco no boteco da esquina e então voltou para casa. Só que não havia mais ninguém lá. Todos haviam saído, inclusive seu irmão. E pregado na geladeira, um bilhete revelava: “Tem feijão congelado no freezer. Favor não descongelar”

Venise fora abandonada, e passou vários meses ao relento. Catou latinhas, fez faxina, e distribuiu filipetas, até que finalmente conseguiu um emprego fixo como assistente num trailer de podrão, debaixo do viaduto de Cascadura. Foi numa madrugada fria de julho que ela conheceu  Emésio, com quem acabou se envolvendo e, posteriormente, dividindo um barraco em Madureira. Ela jamais tocou naquele assunto interplanetário com ele, até a noite de seu vigésimo primeiro aniversário…

Estavam todos na laje do casal, queimando uma carne na churrasqueira improvisada, quando um objeto iluminado surgiu no céu. Venise congelou, e Emésio percebeu que havia algo de errado com sua esposa. Enquanto todos observavam os fascinantes movimentos do Óvni, ele a carregou para o fundo do quintal, onde havia uma bananeira e um banco de paus. Como que num transe, a moça só voltou a si quando levou um balde de água fria na cabeça. Por sorte, ela usava um conjunto de lycra que impediu sua nudez de ser exposta.

Quando perceberam, a nave que há pouco estava a milhas de distância, agora sobrevoava a favela, girando lentamente sobre o barraco. Venise, muito comovida, acabou juntando coragem para revelar a Emésio sobre sua misteriosa origem extra-terrena. Foi um momento comovente, mas que terminou de forma inesperada.  Desnorteado, ele não segurou a onda e saiu correndo, para sumir no meio do mato. A jovem, que não tinha mais a quem recorrer, resolveu então se entregar. “Se eles voltaram para me resgatar, aceitarei meu destino sem resistir e nem reclamar.”

Uma fenda se abriu e, de dentro da nave, seus pais acenaram. Os vizinhos, emocionados, testemunharam o contato imediato que se formou entre a jovem e os visitantes. Com os olhos marejados e a maquiláge borrada, Venise acenou de volta e disse que iria com eles para onde quer que fosse o seu planeta natal. Mas não foi por isso que eles voltaram. Para surpresa de todos, eles estavam atrás de outra coisa: “Venise, sua filha da puta! Cadê a porra do feijão que eu deixei no freezer, caralho?”

“Porra… eu comi tudo! Vocês sumiram, e eu acabei passando fome!” respondeu a jovem. Houve um instante de tensão, onde reinou o silêncio. Cachorros latiam descontroladamente pela favela, e a polícia ameaçava subir. Os traficantes se encarregaram de coloca-los para correr, e logo depois foi retomado o contato: “Nós estamos muito decepcionados, Venise! Ao que tudo indica, você  tomou gosto mesmo pela humanidade…” E a nave partiu, na velocidade da luz. Venise, que jamais se deu por derrotada, bateu palmas para o alto e determinou: “Coloca mais carne na brasa que eu vou mandar descer mais duas caixas de Skol.”

E a vida seguiu na favela, onde o samba ainda ecoava com o alvorecer…

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One Comment leave one →
  1. julho 13, 2010 9:27 pm

    Tadinha da Venise. Hehehe… quando eu tinha uns 15 anos eu esperava alguma revelação dessas também, principalmente quando eu pensava no tipo de parente que eu tenho. 😛

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