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Katia Flávia

setembro 10, 2010

Ela se chama Kátia Flávia e, apesar de morar no Irajá, não é godiva alguma. Até completar dezoito anos, a moça sempre ouvia piadinhas por conta de seu nome. Ora, eram apenas pessoas ordinárias, fazendo alusões baratas à musa de Fausto Fawcet. Outrora, os inconvenientes perseguidores de rabos-de-saia, querendo saber se ela compartilhava algo a mais com a personagem da música, além da maldita alcunha.

Depois de tanto tempo, porém, ela deixou de odiar sua maldição de nascimento. A única bronca é quando levavam o assunto para além dos limites toleráveis, ultrapassando sua zona de conforto. Certa vez, ainda pré-adolescente, ela fora cercada pelos coleguinhas de rua, que insistiam em descobrir que tipo de calcinha estaria escondida por baixo daquele shorts de algodão estampado. Com certeza, ainda não era das comestíveis, mas algumas que usava, realmente tinham rendinhas.

Anos mais tarde, num reveillon em Copacabana, os primos bastardos vindos de Deodoro, tentavam convencê-la a roubar uma patrulha, quando tudo o que Kátia Flávia queria era assistir àquela famosa queima de fogos em paz, ao vivo, pela primeira vez na vida. Ela nunca imaginara que a vida fora do subúrbio pudesse ser tão fascinante, nem que um dia mandaria seu recado pelo rádio da polícia.

Seduzida e deslumbrada pelas novidades que descobrira na zona sul, a garota resolvera dar um basta na mediocridade em que sua vida sempre fora envolta. Se era para ser reconhecida e zombada por conta do nome escolhido na hora do parto, que fosse algo realmente extraordinário e digno de ser lembrado. E, naquele momento, ela sabia muito bem como conseguir chamar a atenção.

Foi numa festa-junina no pátio da igreja que ela apareceu, montada num cavalo branco, completamente nua e serena. Seus pais, envergonhados, fugiram pela tangente e esconderam-se dos olhares aterrorizados da comunidade. Kátia Flávia estava cavalgando por entre os fiéis, com os pêlos pubianos a mostra e uma inédita sensação de vitória. Conseguira calar a boca de todos, sem desferir um único golpe.

Com a chegada da polícia, ela sorriu maliciosamente e pediu para dar apenas algumas palavras antes de ser levada para a delegacia. Atônitos, um punhado de cidadãos e vizinhos reuniram-se à sua volta, na aflição de saber que diabos a teriam feito cometer tamanha loucura. Muito faceira, Kátia Flávia segurou o microfone, aproximou-o da boca e sussurrou: – Entra na minha caaaaaaaaaasa! Entra na minha viiiiiida! Mexe com minha estrutura, sara todas as feriiiiiiiiiiiidas!

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2 Comentários leave one →
  1. setembro 11, 2010 10:29 am

    Fiquei imaginando a face de Kátia nua no cavalo, e o deboche no final? Talvez todo mundo tenha um lado Kátia Flávia. Eu tenho certo rs …Ah! eu amo esse tempo verbal que tu usaste…

  2. Maria permalink
    setembro 14, 2010 11:49 pm

    compreendo.

    um beijo da amélia, que era mulher de verdade, não tinha a menor vaidade, e às vezes até passava fome ao seu lado.

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