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A esquentadinha de Vila Valqueire

dezembro 13, 2010

Mudar-se para a Vila Valqueire não fez bem para Joana. Outrora risonha e melindrosa, a adolescente foi perdendo o viço. Tornou-se sorumbática, e até perdeu peso. Deixou de freqüentar a faculdade, e foi flagrada vagando nua pelas ruas desertas do bairro, no meio da madrugada. Seus pais, temerosos, resolveram interdita-la: “- Filha minha não anda por aí com as vergonhas expostas!”

Mantida sob vigilância constante, Joana mostrou algum progresso. Voltou a comer, estudava durante a tarde, e até já sorria ao assistir algo engraçado na tv. Mas o peito ainda estava apertado: ela sentia falta de um amor que deixara pelas ladeiras do Méier. Um rapazinho meio franzino, de nariz protuberante, por quem sofria copiosamente ao ouvir as melosas canções de seu ipod.

Navegando pelo facebook, alguns dias depois, ela acabou descobrindo que Edelson estava de caso com uma normalista, que conhecera num evento de cosplay. Furiosa, fez trovejar por toda a região de Jacarepaguá. Estava tão revoltada, que seus olhos disparavam raios e ainda soltava fogo pelas ventas. Em questão de minutos, perdeu toda aquela aura de fragilidade, vestiu-se para a guerra e foi a pé até o Méier.

Sozinha, Joana dizimou todos os prédios, vilas e condomínios que encontrou pela frente. Acabou com todas as pracinhas e com todas as árvores, sem deixar o menor resquício de vida pela frente. Seguiu como uma jamanta até o Cachambi, onde finalmente defrontou-se com a vagabundinha que havia roubado seu amor. Estava quase a explodindo com a força do pensamento, quando dois coelhos fofinhos vieram saltitando em sua direção.

Joana hesitou por alguns segundos, e lágrimas despencaram pelas suas bochechas já inflamadas pela ira. Ela olhou com ternura para os bichinhos, e ajoelhou-se na grama. Estava quase afagando-os quando ouviu a afronta desferida pela boca de sua rival. Não houve tempo nem para gritar: fuzilou os coelhos e levantou-se, com as mãos derramando lava.

O embate do século foi travado sob o olhar incrédulo de Edelson, que tentou fugir despercebido. Num ato de desespero, Joana explodiu com a violência de uma bomba atômica, devastando o resto do planeta. Em seguida, ela respirou aliviada. Agora era a única alma dentre bilhões de estrelas, a vagar sem rumo pelo cosmos. O pior foi descobrir que nada daquilo era um sonho. Aí, sim, bateu um desespero…

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4 Comentários leave one →
  1. dezembro 13, 2010 6:01 pm

    É igual quando vc acorda após ter sonhado que estava fazendo xixi: aliviada, mas toda mijada!

  2. dezembro 14, 2010 12:16 pm

    Uma pequena novela Sci-Fi rodrigueana

  3. dezembro 14, 2010 1:31 pm

    Adorei a comparação da Mari. E não sei se é viagem minha, mas achei a metáfora espetacular.
    Abração Rafael!

  4. gera permalink
    dezembro 14, 2010 7:25 pm

    oi???

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