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Bem calçado

janeiro 31, 2011

João chegou em casa carregando um par de sapatos e tratou logo de chamar Euzenira para vê-los: couro legítimo, novinhos, e ele havia comprado no crediário, parcelado em doze vezes. Contemplativa, a esposa inclinou a cabeça e fez uma graça, mas logo em seguida questionou o quanto custara aquele mimo. Estavam apertados, comendo arroz com feijão e sardinha: “Não é o melhor momento para gastar com bobagens, sabe…”

O fato é que João passou a noite em claro, com aquela bronca ecoando em seus pensamentos. Na manhã seguinte, ostentando olheiras profundas e um nó na garganta, devolveu o par de sapatos e cancelou a compra. Com o pouco dinheiro que restava na carteira, passou no mercado e comprou uma bandejinha de alcatra. Pediu para tirar o dia de folga e voltou para casa, afoito para agraciar sua esposa com aquela pequena surpresa.

No caminho, porém, enquanto contemplava a paisagem desgastada das ruas do Méier, o rapaz sentiu-se profundamente incomodado com aquela situação de precariedade monetária. Por mais que amasse Euzenira, sua vida parecia ter empacado depois do casamento. Era trabalho-casa-trabalho, num looping de eterna pindaíba… “Chega!” – bradou ele, para a rua deserta – “Vou mudar isso agora mesmo!”

Por conta das ironias do destino, de fato, sua vida mudou naquela manhã. O atordoado vendedor de carimbos pegou Dona Maria, a dona da quitanda, com a cara enterrada na vagina úmida e levemente aloirada de Euzenira. “Meu amor, não é o que você está pensando”- gritou em desespero – “é que fui picada por uma cobra enquanto mijava numa moita!”.

Sem titubear, João deu uma coça tão irracional nas duas que acabou por tirar-lhes a vida. Depois, tomou um banho demorado, livrou-se dos corpos e ficou sentado na varanda, sem mover um músculo. Passado o choque, sorriu de lado e pensou que tudo aquilo poderia ter sido evitado se não tivesse devolvido os malditos sapatos de couro. “Amanhã eu volto na loja e mudo de vida! Ah, se mudo!” murmurou baixinho para a samambaia que dançava com a brisa quente do subúrbio.

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2 Comentários leave one →
  1. fevereiro 7, 2011 9:00 am

    e eu aqui pensando que sapatos eram mulherices…otimos texto, rafa. Essa parte da samambaia foi a cereja. Abraços

  2. fevereiro 9, 2011 12:22 am

    Eu tb achei o detalhe da samabaia um primor. Muito bom!

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