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Por um novo sentido de vida

maio 18, 2011

Crissiane não sabia ler, nem escrever. Cresceu burra, pois seus pais eram ignorantes. Nunca foi ao dentista, e já lhe restavam poucos dentes na boca, ainda que apodrecidos. Andava capengando da perna esquerda, e seus olhos estavam sempre cheios de remelas. Nunca namorou, nem sequer deu um beijo na boca de um rapaz. Só assistia as novelas da tv Record, e freqüentava fervorosamente a Igreja Universal do Reino de Deus. O pouco dinheiro que ganhava lavando o chão da igreja era entregue no dízimo: “Com muito orgulho, sim senhor”.

Numa noite de sábado, Crissiane saiu apressada para o culto na Catedral da Fé, pegou o ônibus errado e acabou parando na Lapa. Saltou da condução muito cabreira, estranhando toda aquela muvuca em meio aos prédios antigos e canteiros gramados. Assustada com toda aquela gente louca, que bebia e se esfregava numa libidinagem sem tamanho, ela saiu correndo com as mãos no ouvido, clamando pela salvação divina. Sem perceber um buraco na calçada, caiu de boca nas pedras portuguesas e desmaiou.

Amparada por um travesti, que comia seu hot-dog na esquina da rua do Lavradio, Crissiane começou a chorar compulsivamente. Sua nova amiga deu-lhe um gole de Fanta Laranja e a levou para um pequeno prostíbulo na rua do Riachuelo, onde poderia se recompor do baque. De banho tomado e com o sangue estancado, Crissiane adormeceu numa cama humilde, cedida por dona Eronilda, a cafetina. A crente sonhou que estava voando, cada vez mais alto, e então deu um mergulho de cabeça no mar. Acordou molhadinha, de tanto que mijou na cama.

O fim de semana passou, e ninguém mais viu Crissiane nos cultos. Seus pais entraram em desespero, com uma semana de sumiço. A moça foi dada como morta depois de um mês, já que não deu as caras na comunidade onde morava. Agora atendendo pelo nome de Karynne, ela trabalhava como faxineira do puteiro, limpando porra de lençóis, catando camisinhas do chão e ajudando as travestis a se produzirem para a noitada. A moça nunca foi tão feliz, e se deus quiser, na próxima vida ela voltará homem, só para também poder se vestir de mulher e comer o cu de geral.

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9 Comentários leave one →
  1. maio 18, 2011 6:47 pm

    Ai, eu amo esse blog. Acho que eu não ria tão sinceramente desde que acabou Seinfeld.

  2. maio 19, 2011 11:28 am

    Oh xará…obrigado pela visita…pelo comentario deixado…vou dar uma fuçada no seu blog…estava lendo o primeiro post e ja percebi que sua narrativa muito me agrada…

    Vou termina-lo e volto pra comentar mais..

    abração.

  3. maio 19, 2011 11:54 am

    comer o cu de geral. ahahaha
    mto bom!

    já virei fã né?
    abraço

  4. maio 19, 2011 12:29 pm

    Nossa camaradas, preparem-se, Suburbanismos vicia.

  5. Luiz Paulo permalink
    agosto 13, 2011 12:30 am

    Tem como não amar seus textos?

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