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De Cachambi para o mundo

maio 25, 2011

Antes de qualquer coisa,  leia o conto “Do ralo pra panela”, publicado originalmente em agosto de 2009.

Pouco mais de dois anos se passaram, e a casa com o muro de tijolinhos no bairro do Cachambi ficou conhecida por todo o Brasil. As lagostas continuavam brotando ininterruptamente pelo ralo da área de serviço, e Dona Eneida, agora famosa, foi entrevistada pelo Fantástico. Logo, ensinou receitas no programa de Ana Maria Braga, participou de debates com Sonia Abrão, foi convidada para a Dança dos Famosos e até fez ponta num vídeo de Luan Santana.

Fanáticos religiosos disputavam a calçada com jornalistas e biólogos, que imploravam pela chance de investigar a causa daquele estranho fenômeno. Com os negócios a todo vapor, sua família achou melhor não mais vender as quentinhas para a comunidade, e então passaram a fornecer lagostas somente para criadouros e restaurantes finos da zona sul. Depois que o dinheiro lhe subiu à cabeça, Dona Eneida ficou besta e resolveu se mudar para um triplex, deixando sua empregada como responsável pela coleta dos crustáceos.

A vizinhança, acostumada com a popularização da iguaria, não recebeu muito bem aquela notícia. Houve até um princípio de tumulto, quando a família deixava o local sob escolta da polícia militar. É que a lagosta à milanesa com creme de trufas, prato mais disputado do menu, costumava ser oferecida justamente naquele dia. Alheia a tudo isso, Dona Eneida, já circulando pelas páginas da alta sociedade do Leblon, ostentava enormes brincos de diamantes e só queria viver de caviar e Veuve Clicquot  Ponsardin.

Naquela quinta-feira, o telefone tocou bem cedo. Era Rosália, informando que nenhuma lagosta havia aparecido desde a noite anterior. Sem muito alarde, Dona Eneida mandou que sossegassem por um tempo, já que as bichas deveriam estar tendo algum revés para chegar até o ralo. Passaram-se quinze dias, e a situação permanecia inalterada. O milagre desaparecera de repente, tal qual foi sua chegada. Quebrou-se todo o quintal e ninguém conseguiu explicar para onde elas foram, nem de onde haviam surgido.

Deprimida e endividada, Dona Eneida precisou voltar para o Cachambi, onde não foi recebida com sorrisos, nem boas vindas. Todos os vizinhos viraram-lhe as caras, e só alguns poucos beatos ajoelharam-se aos seus pés, talvez por não saberem sobre o desaparecimento das lagostas divinas. Do ralo, na área de serviço, agora só escapava um cheiro azedo de esgoto e uma horda de baratas cascudas. Mais nada.

Dona Eneida, uma vez mais, não tinha a menor idéia do que preparar para o almoço, já que nos últimos tempos havia se habituado com pratos requintados e champagne. Seu marido, completamente  transtornado, cavava dia e noite atrás das lagostas, enquanto o caçula resolvera ir embora, envergonhado por ser pobre outra vez. Macarronada? Omelete? Bife com batata-frita? Purê de berinjela? Salpicão? A outrora madame voltou a ser dona de casa, e mais do que nunca, suburbana.

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5 Comentários leave one →
  1. maio 25, 2011 5:11 pm

    “Suburbanismos” completa quatro anos com homenagens a seus leitores mais fiéis.
    Hoje, as honras vão para o Humberto, que sempre fala das lagosta de Dona Eneida.

  2. maio 25, 2011 5:29 pm

    M.I.A. é muito suburbana. Acho que é por isso que eu gosto! ahahaha
    abraço Rafa!

  3. maio 25, 2011 6:40 pm

    Há, mas que honra!! Eu não tinha reparado que o Suburba do meu coração tinha quase a mesma idade do meu bluóguinho.

    Rafael, meu querido, você sabe o quanto eu sou fã desse espaço e o quanto eu admiro o talento de suncê. As peripécias suburbanas narradas aqui costumam salvar meu dia, e eu agradeço.

    Quanto à Dona Eneida, não podia ter outro final não. Como bem sabe Adriane Galisteu, uma vez suburbana, sempre suburbana, não importa quantas lagostas apareçam na sua vida.

    Sucesso pra você, rapaz, parabéns!
    😀

  4. maio 26, 2011 11:01 pm

    Pobre com dinheiro fica besta. Essa dona aí de depressiva passo a viver quando viu um “money” rs Viu como dinheiro [não compra] mais ajuda com a tal felicidade?

    Muito bacana… Será que rola uma parte 3 com a explicação de onde vinham as lagostas? Ok, é uma ideia meio besta… rs

    Hey, 4 anos? Parabéns 😀

  5. maio 27, 2011 3:15 am

    Tu és um cronista da atualidade, mestre!

    Parabéns pelo talento e espaço aqui, vou te acompanhando. Te seguirei, linkei ao meu blog, um abraço!

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