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Pupi

julho 27, 2011

Pupi chegou num cesto de vime, usando uma gravatinha azul no lugar da coleira. Era um poodle toy acinzentado, que parecia muito esperto e peralta para quem só tinha 45 dias de vida. Recém desmamado, veio como presente de aniversário para a pequena Adelaide, que era filha única e há tempos pedia por um mascote. Diferente da maioria dos cãezinhos que choram na primeira noite longe da mãe, ele só queria um pouco de carinho. E assim foi feito.

Nos meses que seguiram, o filhote foi tratado com todo o mimo do mundo. Dormia ao lado da cama da guria, numa dessas almofadas bem fofas, com alguns paninhos estampados. No inverno, com a chegada das alergias e da bronquite, foi “convencido” a dormir na varanda, onde demorou a se adaptar ao frio e ao vento. A primeira noite foi uma dureza. Ele até tentou reclamar, batendo na porta com as patinhas, mas acabou voltando para seu cantinho em busca de calor.

Na manhã seguinte, lá estava seu rabinho abanando, e assim foi, sempre que o sol raiava.  Veio a primavera, acabaram-se os espirros, e ele continuou morando do lado de fora. Adelaide cresceu. Estava, agora, no ginásio. Pupi ficava sentado à beira da escada, esperando-a voltar pra casa, todo final de tarde. Quando ouvia o ruído do ferrolho no portão, disparava como um foguete e saltitava nas pernas de sua dona, agradecendo por um carinho que sequer receberia. Entretida com os apps de seu smartphone, ela sequer notava as acrobacias do bichinho.

Sua maior felicidade era acompanha-la até a varanda – o que durava, no máximo, quarenta segundos – daí ele já sabia que não se veriam mais, até a manhã do dia seguinte. Quando Adelaide saia novamente para o colégio, o poodle fazia mais uma festa, igualmente ignorada. Assim passou-se o tempo, e Pupi se manteve sempre fiel àquele costume. Sozinho, brincava com sua bolinha amarela pelo quintal, até o dia em que decidiram larga-lo numa rua deserta perto do lixão de Jardim Gramacho.

Pupi tentou correr atrás do carro, mas um caminhão vindo na direção contrária o assustou, fazendo com que os perdesse de vista. Em sua primeira noite ao relento, tentou encontrar abrigo sobre a marquise de uma fábrica. Passou frio, fome e sofreu com a solidão. Era pequeno demais para recomeçar num lugar tão hostil. Se pelo menos tivessem deixado sua almofada, ou os paninhos, ou a bolinha, teria no que se amparar… mas estava sozinho.

O pequeno perambulou pela região durante alguns meses, sendo alimentado ocasionalmente por transeuntes e alguns moradores mais afetuosos. De outros, no entanto, ganhou vários chutes, baldes de água quente e até pauladas. Já debilitado e com uma profunda tristeza no olhar, Pupi adoeceu. Foi emagrecendo gradativamente, até a noite em que deitou-se enroscado junto a um barranco e suspirou. Dormiu pela última vez e não acordou.

Adelaide, dia desses, remexia em seu album de infância e encontrou um retrato de Pupi, com a bolinha amarela na boca e o rabinho agitado. Apertou-lhe o coração lembrar que sequer olhou para trás quando o largara, pela porta de trás do carro, naquele lugar que nem lembrava o nome. Dali, para o resto da vida, ela iria se perguntar o que acontecera com ele, e sofreria com o remorso de lidar com o fato de que, àquela altura, ele talvez nem estivesse mais vivo para pular em suas pernas.

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12 Comentários leave one →
  1. julho 29, 2011 1:27 pm

    Este “conto” é dedicado a todos os bichinhos largados à própria sorte aqui neste fim de mundo onde fica a empresa onde trabalho. Em especial, dedico ao cachorrinho caramelo que nestes cinco anos me abana o rabo, toda vez que passo pela manhã, mesmo agora, que está visivelmente adoentado e frágil.

  2. Maria Fernanda permalink
    julho 30, 2011 11:36 am

    Muito bom! Parabéns Rafael!

  3. julho 30, 2011 12:42 pm

    Gostei muito do seu Blog, já esta favoritado.

  4. agosto 1, 2011 12:14 pm

    é pra cortar o coração? ehehe
    bacana!

  5. agosto 2, 2011 2:30 am

    Nossa Rafael, vc identificou o tipo de gente por quem eu mais tenho asco nessa vida, gente que abandona bicho de estimação. É um tipo de gente com quem eu não consigo nem me relacionar, nem dar papo.

    Lindo o conto, apesar de muito triste. E sua dedicatória me deu mais vontade de chorar ainda.
    😦

    • agosto 2, 2011 9:50 am

      Imagine eu ter que passar pelo “Pupi” todos os dias, sem poder ajudar?
      Minha última alternativa é ligar pra SUIPA, mas não sei se eles viriam até aqui…

  6. agosto 2, 2011 3:53 pm

    Eu lembro bem qdo eu era criancinha e minha tia soltou um cachorro na rua, eu fiquei chocado já naquela idade. Essa minha tia passou por tanta coisa ruim depois, mas tanta… pode ser viagem minha, mas no meio do furacão eu lembrei na hora do cachorro. O cachorrinho pode não voltar pra casa, mas a maldade com certeza volta pra quem fez.

    P.S.: minha tia nem é das piores pessoas, coitada, acho que ela aprendeu muita coisa. Alguns de nós, que cedo ou tarde aprendemos com os erros, ainda bem.

    P.S.2: Qse beijei meus cachorros na boca hj depois de ler esse seu conto ontem.

  7. agosto 3, 2011 12:12 pm

    Nossa, Rafa, que triste isso! Que dó, que dó!

  8. Luiz Paulo permalink
    agosto 12, 2011 11:15 pm

    LINDO! Nossa mto bom seus contos, esse então é de cortar o coração.
    Abraço

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