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A pulserinha dourada

julho 25, 2011

Marcimeire é a típica garota suburbana, que vai a missa todos os domingos, faz cursinho de computação, usa lentes de contato azuis, não come carne-seca com aipim, tem dois pinscher na cor caramelo, já trabalhou como atendente de telemarketing, tem um namorado marombeiro, está tentando entrar para a faculdade de recursos humanos, tem nojo de gente suada, mora com os pais em Vila Isabel e curte um baile funk nos fins de semana.

No último sábado, lá estava ela no camarote da Via-Show, distribuindo abraços não muito sinceros e sorrisos evasivos, durante a comemoração do aniversário de Adeomar, seu namorado. O vestido que escolhera para a ocasião era tão curto, que se cobrassem pela quantidade de tecido, pagaria menos do que custa um cacho de bananas. Marcimeire gostava mesmo era de afrontar: depois de três vodkas com Red Bull, a morena estava quicando ao som de um Mc qualquer com o rego na grade.

Entre um agachamento e um rodopio, ela flagrou uma biscate de cabelos oxigenados aproximando-se de seu homem. Com os olhos que a terra um dia há de comer adornados pelas lentes de contato, ela ficou só filmando como seria o bote daquela sem-vergonha. Fez de conta que não percebeu a danada entregando um cartão com seu número de telefone para Adeomar, que sorridente, agradeceu com um beijo demorado na bochecha da maldita.

Tomada pela fúria de Sula Miranda, a destemida Marcimeire correu para os braços de Adeomar e tascou-lhe um beijo cinematográfico. Com a cara toda borrada pelo batom vermelho-piranha, ela foi apresentada a Veronicque. Como o som estava muito alto, não ouviu direito e respondeu sorrindo, dando uma sinuosa quebrada com o quadril. Sob o pretexto de que precisava comprar uma água para se retocar, a morena meteu a mão no bolso do namorado e puxou, junto com alguns trocados, o cartão daquela piriguete.

Como dispunha de uma pulserinha dourada, Marcimeire teve acesso ao banheiro unisex da diretoria.  Depois retocar a maquiagem e desafogar a bexiga, a morena sacou de sua bolsa um enorme pincel atômico. Seu velho companheiro de baladas, que já durava anos, fez mais uma vítima. Espumando de raiva, ela entrou em todas as cabines e pichou suas portas com o telefone de Veronicque, acrescentando a alcunha de Piranhuda de Caxias. Aliviada, ela picou o cartão, jogou no vaso e deu a descarga. Depois voltou sorridente ao camarote e se acabou no funk, dançando até o chão.

Ela só não esperava que Adeomar, dispondo também de uma pulserinha dourada, fosse ao banheiro logo em seguida, acometido por uma forte dor de barriga. Como todo bom taxista, o sujeito tinha um fraco por sexo descompromissado, e ficou excitadíssimo com o recadinho que lera na porta enquanto virava do avesso na privada. Rapidamente, o marombeiro anotou o número em seu celular, e o destino se encarregou de todo o resto. Sem saber, Marcimeire acabou foi lustrando seu próprio par de chifres. E chifres, tinha aquela suburbana…

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6 Comentários leave one →
  1. julho 28, 2011 5:45 pm

    boa, boa!

    adoro suas histórias de vingança (nunca esqueço da praga bumerangue)

    eu já escrevi uma declaração de amor na porta do banheiro do museu da língua portuguesa, em SP. com pincel de quadro, não foi tanto vandalismo.

    • julho 28, 2011 6:08 pm

      Toda vingança tem um pouco de bumerangue, né?
      É tipo lei da física: cuspiu pro alto…

      No caso de Marcimeire, foi só uma questão de colocar pimenta no angú.
      😀

  2. julho 29, 2011 1:22 pm

    Nossa acho que eu me fodeira igual a Marcimeire!!
    É o tipo de vingança suburbana que eu faria… Preciso rever meus conceitos!
    Rafael to a uma hora lendo seus contos!!! adoooooro!!

    Beijos meu amigo

  3. agosto 2, 2011 2:41 am

    Rafael Pascoal e David Ramos se encontram: bomba no suburbanismos!

    Adoro os dois, me divirto com a ficção de um e as crônicas da vida real do outro, rs.

    Ri muito da fúria de Sula Miranda, KKKKKKKKKK!!!! E não sei o que é pior, Marcimeire arranjando o próprio chifre ou Veronicque com um taxista cagão.

    Qto a vinganças prefiro não comentar. Sou meio cruel pra essas coisas. Deixaria Norma, aquela fraca, no chinelo.

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