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Bebês em Sachês

outubro 10, 2011

Quando Rosane passou pela banca de jornal, quase teve um troço. Finalmente encontrara o disputadíssimo primeiro fascículo de “Bebês em sachês”. A coitada já havia rodado por Madureira, Quintino e Cascadura, mas precisou caminhar até Bento Ribeiro para, finalmente, garantir a perninha direita do neném.

Para quem não podia engravidar, aquela novidade caiu do céu como uma bênção. O preço era mais salgado que bacalhau, mas o sonho de ter seu próprio filho, por si só, valia qualquer sacrifício. Já na primeira edição, ela aprendeu a identificar a diferença entre o choro de fome e o choro de birra.

Semana após semana, ela comprou religiosamente todos os fascículos. Cada nova parte do bebê deveria ser reservada, até que todos os sachês estivessem disponíveis. Por conta de uma apendicite perfurada, Rosane acabou perdendo o sachê que continha o bracinho esquerdo, que acabou esgotando em todo o Rio de Janeiro.

Foram dezenas de ligações para a editora, súplicas em fóruns do Facebook, campanhas em correntes de email e até macumba. Rosane ficou sem o bracinho, mas não desistiu do bebê: comprou até a última semana, e resolveu arriscar. “Afinal, tanta gente consegue viver com bem menos”, filosofou no Twitter.

Daí, o grande dia havia chegado. A mistura de todo aquele pozinho seria imersa numa bacia de alumínio, com água morna e três gotas de sangue da futura mamãe… e mais quatro do papai? Como aquele era seu projeto solo, Rosane imaginou que aquilo também não faria falta e foi adiante.

Depois de seguir (quase) todas as etapas descritas no último fascículo, Rosane cobriu a bacia com uma toalha quente e colocou um cd da Alcione pra tocar. Estava ansiosa para ver a carinha de seu futuro rebento, mas deveria aguardar três horas até o “parto”. Para aguentar isso tudo, tinha um pack de cerveja Polar mofando no refrigerador.

Rosane acabou pegando no sono, e só acordou no dia seguinte. Afoita, correu até a bacia, para finalmente ter nos braços o seu tão sonhado bebê. Com lágrimas nos olhos, ela começou a levantar cuidadosamente a toalha. Suas mãos tremiam de nervoso, mas lá estava ela… Imperfeita, porém amada.

Aquela bolinha de carne, disforme e inerte, acompanhou Rosane até seus últimos dias. Obediente como uma pedra, nunca fizera pirraça. Uma pena que a mãe, acometida pela demência, a tenha confundido com uma peça de alcatra. Foi um domingo delicioso ao lado da churrasqueira, com suas amigas de jogatina.

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One Comment leave one →
  1. junho 22, 2012 11:42 am

    Tive crise de riso aqui com esse hahahahahahaha

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