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Microdrama da resignação

julho 1, 2012

Palmerina morou por quase oitenta anos em Olaria, numa casinha antiga que pertencera aos seus avós. As paredes já estavam esfarelando, o forro do teto foi tomado por cupins e os tacos do piso dançavam entre suas frestas. Apesar da aparente decadência e do cheiro de mofo, foi ali que a cansada senhora criou seus filhos, recebeu os netos durante as férias e segurou a mão de Jorge, seu marido, até o último suspiro.  Era, portanto, um lar feliz.

Num domingo qualquer, sem ter o que fazer, Palmerina telefonou para um desses programas televisivos e foi contemplada com um elegantíssimo apartamento no Leblon, com despesas e taxas inclusas, até o dia de bater as botas. Educadamente, ela declinou do prêmio, e se explicou: “Aqui em Olaria, eu já sei que o lixeiro passa na terça, na quinta e no sábado. Isso basta. Tem como trocar pela batedeira? É que eu faço bolo pra fora.”

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