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Cosme, Damião, querosene e tupperware

setembro 27, 2012

Neste ano, Catiana preferiu não correr atrás de doce. Justo ela, que sempre amou essa coisa de Cosme e Damião, declinou todos os convites e rejeitou os saquinhos que lhe ofereceram pela rua. Como faria quinze anos na semana seguinte, a menina precisou fechar a boca para caber no vestido. Ela resistiu o quanto pôde, mas acabou sucumbindo à tentação: no meio da madrugada, pegou o pote do irmão e devorou tudo o que tinha dentro.

No dia da festa, como já era de se esperar, a jovem não coube no modelito. Logo, afundou-se em depressão e a única alternativa seria cancelar a festa. Seus pais bem que tentaram abafar o escândalo, mas a notícia espalhou-se por todos os lados. Logo começaram a chegar insultos pelo facebook, pelo twitter e até pelo whatsapp. Ao cair da noite, ouviram um spray e lá estava um xingamento dos mais baixos, em garrafais letras vermelhas, pegando todo o muro.

Houve quem jogasse ovos e até tomates podres em sua casa. Choveu pedra, cascalho e tijolo, até chegar a patrulhinha. O alvoroço persistiu e o povo clamava por uma declaração, já que a Hildinha ouviu dizer que encomendaram 5000 salgadinhos. Os pais de Catiana, trêmulos e assustados, foram escoltados até a calçada, onde falaram sobre o drama que acometera a vida da jovem. Por mais detalhistas e sinceras que fossem as desculpas, não houve acordo: o povo queria a boca livre.

Ao ouvir todo o falatório, por entre as frestas das cortinas de macramê, Catiana surtou. Ela saiu correndo rua abaixo, usando o vestido com saia de tule, gritando como uma puta sem religião, até esbarrar numa lata de querosene e, logo mais à frente, uma guimba de cigarro. Inflamou-se. Correu mais um pouco e tombou. Fedendo a churrasco esquecido na grelha e coberta de fuligem, não lhe restava muito tempo de vida.

A menina já estava mais pra lá do que pra cá, quando foi questionada por Dona Idalina sobre seu último desejo.  Catiana balbuciou algumas palavras soltas e morreu. Dona Odete, que tinha cento e setenta quilos de pouca vergonha, fez questão de gritar: “A menina queria a festa assim mesmo!  Manda abrir o salão, minha gente! É a festa da menina morta!”

Todos beberam e comeram , até arrotarem alho e coentro.  Foi um verdadeiro festival de horrores, onde mulheres desesperadas entupiam suas tupperwares com doces e salgadinhos, homens carregavam engradados de Cintra nos ombros e crianças remelentas regurgitavam Coca-cola morna. No fim das contas, Catiana passou de protagonista a mera figurante. Uma pena… antes tivesse corrido mesmo corrido atrás de doce. Assim mataria a vontade, o vestido teria servido e este conto se resumiria a um mero parágrafo.

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