Skip to content

Valéria Cristina Paralelas

setembro 24, 2013

Acordou abafada, com a cara enfiada no travesseiro. “Fofo demais”. Só que ela odeia travesseiro fofo demais. Não tem nenhum desses em casa, então é certo de que deve estar no quarto de outro alguém. Janelas fechadas, cortinas grossas, só um filete de luz e mais nada. “Onde estou?” – pergunta-se, um tanto zonza, enquanto tateia a cama e… um corpo quente. “Mas quem é? Estou na casa dele?”

Joana consegue escapar sem acordar a pessoa. Não sabe quem é, já que não se lembra do que ter saído de casa na noite anterior. Estourou uma bacia de pipoca, colocou um filme de zumbis pra rodar, tomou banho, masturbou-se e acordou aqui. Procura por um interruptor, pensando na estranheza da situação: “Muito estranho. Será que peguei o tal do sonambulismo da minha tia? Era só o que me faltava!”

Click

Ele tem o peito peludo, braços fortes, tatuagem de carpa, cabelos encaracolados e também tem barba. É um cara bonito, mas ela não tem a menor noção de quem seja: “Pelo menos trepei bem. Espero que sim. Ou… Será não que trepei?” Sim, sua caixinha está  ardendo de leve. A noite foi boa. “Mas onde o conheci? Devo ter bebido… Ou foi Boa Noite, Cinderela?” Sem saber como proceder numa situação como essa, ela o cutucou.

“Bom dia, tudo bem?”

“Porra, Cristina! Hoje é domingo, vamos dormir mais um pouco, vai? As crianças nem acordaram ainda, caralho!”

“Cri-an-ças.? Do-min-go? Por-ra? Cris-ti-na?” Seu nome é Valéria, não tem filhos, e hoje deveria ser quinta-feira. Provavelmente trata-se de um sonho, e ela volta para a cama, num provável estado de choque. “Vou acordar e tudo vai voltar a normal. É só um sonho maluco, Valéria. Dorme, que tudo passa.” Repetiu o mantra até, de fato, adormecer.

“Mãe! Hoje já é amanhã?” Valéria acorda com o interrogatório de uma linda e estridente menina  de olhos azuis. Como os seus olhos azuis. O homem do sonho entra no quarto, ainda sem camisa, e abre as cortinas. “Não é aqui que eu moro. E eu não sou Cristina! O que está acontecendo?” Ela berra e assusta a própria filha. “Está louca, Cristina? Que história é essa de Valéria? Levanta e vai lá falar com a garota, saiu desembestada pro quintal…”

“Eu sou Valéria! Eu sou Valéria! Eu sou Valéria!  Eu sou Valéria, né?” perguntou-se diante do espelho. Não era pra ser um sonho?  Não era pra acabar depois de acordar? Tudo tão estranho, e de repente ela se vê à vontade, remexendo o armário de uma mulher que ela não deveria ser. “Será que eu acordei numa realidade paralela? Quem é Valéria?”

Ela encontra a filha chorando, meio assustada. “Está tudo bem, meu amor. Mamãe teve um sonho esquisito, foi só isso. Vamos tomar café?” Naquela manhã tinha torradinha com geleia de morango, sua favorita. Tomou dois copos de suco de laranja e uma xícara de café. Hoje eles vão almoçar fora, e ela já nem sente mais tanto estranhamento. “Espero que a tal da Cristina não deixe de pagar minhas contas. O aluguel vence amanhã.”

Anúncios
No comments yet

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: