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A beleza da ironia

março 10, 2015

Prova cabal de que a beleza não reside nos detalhes, e sim no conjunto, Adulênia era tida como horrorosa por todos que a conheciam. Seus cabelos ruivos despencavam em cachos pelos ombros, e os olhos azuis turquesa que herdara da avó materna, infelizmente, não ornavam com o todo. A rapariga bem que tentava dar um jeito naquela falta de harmonia, mas a verdade é que jamais ouvira um assovio de galanteio, mesmo que de um pedreiro estrábico. No fim das contas, era uma mulher triste e solitária, cujos únicos prazeres resolviam-se trancados dentro do quarto, longe dos olhos de reprovação que lhe eram reservados pela família.

Foi numa manhã de terça-feira que tudo mudou. Depois de passar a madrugada chorando sobre seu travesseiro, Adulênia foi derrubada pela exaustão. Não se sabe qual a receita da mandinga, ou se foi mesmo um milagre: o fato é que a moça despertou com uma forte dor na cabeça, e tão linda quanto uma princesa nórdica. A pele brilhava tal qual uma pérola, emoldurada por cabelos ondulados como o fogo, realçando seu olhar amendoado e cheio de vida. As curvas de seu corpo pareciam torneadas pelo mais talentoso escultor do período barroco, de tão sinuosas e perfeitas. Dizer que ela estava radiante seria blasfêmia. Adulênia experimentava um torpor quase orgástico.

Mas, como tudo na vida, há um preço alto a ser pago. Assim que despiu-se para entrar no banho, ela percebeu que também havia sido amaldiçoada. Da noite para o dia, Adulênia ganhou a beleza de mil mulheres, assim como o falo rijo e volumoso do mais fértil varão. Um pânico quase mortal a levou ao chão, onde permaneceu estática até ser encontrada pela mãe. Toda a beleza que exalara ao despertar foi substituída por um estado irrevogável de catatonia, que durou exatos cinqüenta minutos. Ao voltar a si, caiu no choro, e precisou ser consolada pelos braços curiosos de seus familiares.

Passado o susto, Adulênia resolveu procurar um especialista. Queria saber como poderia ter dormido horrenda para acordar travesti. Como era cética até o tutano, já tratou de excluir a hipótese de macumba ou feitiço. Aquilo não era obra do acaso, tampouco algo sobrenatural. Ao relatar tudo ao médico de plantão, recebeu uma careta interrogativa. Nunca antes fora testemunhado algo desse tipo, e ela seria a primeira pessoa no mundo a transmutar-se espontaneamente. Pelo menos, que se tenha registro. Nada que faça alguém se orgulhar, mas definitivamente era um diferencial.

Muito se falou, muito se cogitou. Mas nada trouxe de volta a sua paz de espírito. Depois de muito sofrer, Adulênia resolveu assumir sua condição de sexualidade ambivalente e mudou de atitude. Comprou alguns balangandãs nas lojinhas do Saara e passou três dias debruçada sobre a máquina de costura. Insistiu tanto que conseguiu apresentar-se no programa do Silvio Santos, onde ganhou com louvor o concurso de transformistas e ainda arrematou dinheiro suficiente para bancar o aluguel de um quarto-e-sala em Copacabana. Hoje, ela recebe assovios por onde passa, e ainda é chamada de gostosa. Só precisa perder o medo de trucar as bolas para ficar perfeita.

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