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A vingança escorre perna abaixo

abril 15, 2015

Cinco e quinze da manhã, de uma quarta-feira. O Rio de Janeiro fora praticamente submerso pela chuva, depois de meses na estiagem. Por todos os lados, eram valões transbordando, deslizamentos de encostas, caos no trânsito e um prefeito desequilibrado. Mirinda e Vanusa tentavam chegar a tempo no serviço, apesar disso parecer uma tarefa quase impossível.

– O povo da zona sul deve estar adorando essa coisa de fecharem o Rebolças, né?
– Porque, Mirinda?
– Ah, por que assim eles conseguem manter os pobres isolados do outro lado, Vanusa!
– Mas essa confusão ta atrapalhando eles também, garota! Muita gente trabalha no Centro, sabia?
– Pode até ser, mas escreve aí: eles estão a-do-ran-do!
– Humpf! Cospe no prato que tu come, Mirinda… Cospe!!!
– Sério, Vanusa! Esse povo é tudo cheio de merda…
– Então dá purgante pra eles. Daí não vão ter mais merda pra cagar!
– Nem vaso pra gente limpar!!! Genial essa tua idéia, biscate!
– Poisé, terminei o supletivo e fiquei toda inteligente!
– Hummmmm… metiiiiiida! Um dia também vou conseguir me formar, sua vadia!
– Foi Dona Vânia que pagou o curso. Ela te ofereceu também, lembra?
– Aquela piranha? Ela não me paga nem a passagem direito…
– Ah, mas tu é marrenta, mermo, né, Mirinda?
– Se eu aceitasse, iam querer que eu trabalhasse no fim-de-semana. Nem morta!!!
– Devia ter deixado esse orgulho de lado…
– Então, tava pensando aqui… Vou passar na farmácia pra comprar o bagulhinho, Vanusa…
– Para de fogo, garota. Que agonia é essa, hein? Quer ser mandada embora?
– Me deixa, lagartixa! Vou colocar purgante na água deles, sim! Você vai ver!
– Duvido, Mirinda! Tu é a maior cagona!
– Cagona é cacete… Quero ver quem é que vai ficar cheio de merda, agora…

E elas, depois de três horas num engarrafamento catastrófico, finalmente conseguiram chegar ao Jardim Botânico. Mirinda passou numa farmácia e pediu o purgante mais forte que eles tinham. Pagou em dinheiro, para não deixar pistas. Ao chegar no prédio onde trabalhava, derramou todo o conteúdo do vidrinho em garrafas de suco, filtros d´água e refrigerantes.

Após alguns dias, a chuva parou, o túnel reabriu e o sol voltou a brilhar, para a alegria geral dos desocupados. Mirinda, no entanto, foi demitida. Por conta de um misterioso surto de diarréia, a família para a qual ela trabalhava resolveu se mudar para a Europa. Levariam só Vanusa, que já arriscava algumas palavras em inglês e, em momento algum, recusou-se a lavar as privadas, durante aquele período tenebroso, onde todos quase viraram do avesso.

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