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Do amor instantâneo

junho 14, 2015

Dia dos namorados é uma data cruel. Muitos dizem que é uma invenção do comércio para vender mais, e não dão a mínima para essa bobagem. Já quem se importa, e não tem um cobertor de orelha a seu dispor, acaba curtindo a tremenda dor de cotovelo que é ver os casais apaixonados passeando de mãos dadas pelo shopping. Existem aqueles que fazem como Marlom, que se jogou na balada em busca de uma garota que o quisesse tirar daquele sufoco. Solteiro desde sempre, ele já não agüentava mais ter que dar de ombros e fazer muxoxo quando suas tias suadas perguntavam pela “esposa” e se haveria, afinal, um casamento.

Depois de fumar quase todo o maço de Marlboro vermelho, debruçado sobre o peitoril da janela de seu quarto, Marlom pegou o carro e saiu sem destino. Colocou para tocar um cd pirata do Skrillex, que comprou no viaduto de Madureira, já para chegar em ponto de bala. Não queria ir pra muito longe, pois naquela noite iria enfiar o pé na jaca, e se tudo desse errado, pelo menos não levaria séculos até voltar para casa. Acabou parando no Bar da Pomba Cida, que não tinha uma fama das melhores, mas pelo menos era garantia de uma boa trepada no motelzinho da esquina. Estacionou numa viela, deu uns tragos no último cigarro e já chegou no bar com a fúria de um touro no cio. Olhou para um lado, para o outro, fez um pouco de pose… Nenhuma das garotas, entretanto, mostrou interesse em retribuir seus charmes. Sem graça, ele achou melhor mudar de estratégia.

Parado num canto, bebendo seu uisquinho de procedência duvidosa, ele notou que alguém o observava. Como o bar estava escuro demais, tentou chegar mais perto da pista, para ver se enxergaria melhor aquela beldade. Deu mais alguns passos em sua direção e percebeu que ela estava com um riso frouxo, quase debochado. Paranóico e impulsivo, já ficou imaginando todos os motivos mais esdrúxulos para que ela estivesse achando tanta graça. Se houvesse bebido um pouco mais, era bem capaz de enfiar-lhe um tapa na cara, mas como já fora enquadrado na lei Maria da Penha, achou melhor segurar a onda. Quando chegou bem perto, sem pensar duas vezes, foi logo gritando com a mocinha, como um esquizofrênico: “Eu tenho amigos, tá?! Eu não vim sozinho, não! Eles só não chegaram ainda, mas já estão vindo! Estão virando a esquin…”

Com a mão tapando o sorriso largo, e os olhos arregalados, ela revelou que, na verdade, tinha o achado muito gracinha, e que estava justamente pensando num jeito de chegar junto, sem parecer vulgar ou oferecida demais… Sequer houve tempo para que se apresentassem direito. Marlom a agarrou pelo pescoço e então deram um beijo digno de cinema, com direito a perder o fôlego e ficar com um leve rubor nas bochechas. Enquanto se recompunham, ela revelou que seu nome era Juanita, e que também estava em busca de algo. Ficaram horas se acariciando, descobrindo detalhes apaixonantes sobre suas vidas e, como num passe de novela, talvez influenciados pelo desespero que a data causava, condenaram-se ao namoro. Ali mesmo, em meio aos drinks feitos com vodka Balalaika e a fumaça de Derby, que deixaria até suas roupas íntimas fedendo no dia seguinte…

 

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