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Antes que seja tarde

junho 19, 2015

“Essa vai pros corações solitários” sussurrou Isis no microfone, enquanto esticava o braço para alcançar seu acordeom. Usava tranças nos cabelos e as unhas eram pintadas com pequenas flores brancas. Tinha saído de Campo Grande com a tarde ainda clara e seguiu de trem até o Centro, onde pegou um táxi para Copacabana. O bom de ter chegado cedo é que poderia arrumar suas coisas com calma e deixar o palco do jeitinho que gostava. No camarim, passou cajal nos olhos, um batom levemente dourado e três borrifadas de perfume, porque nada é mais importante do que estar cheirosa. Tomou algumas caipirinhas, já nem contava mais, antes do bar encher. Esta noite, faria um especial só de canções para que sofre com os sintomas da saudade.

“Ainda penso em você, a cada manhã e cada beijo que não demos” foi o que escreveu Dado num torpedo para sua ex-namorada. Estavam separados há dois anos, mas ele não conseguia superar a distância. Até havia tentado se envolver com outras pessoas, mas o coração tem vontade própria. Nada que tivesse de novo poderia se comparar, de forma alguma, com o que tiveram. Ele ainda nutria esperanças de que, com um boa dose de tempo e saudade, ela o aceitaria de volta. Beijou a foto que ainda ilustrava sua mesa de cabeceira, com a devoção que se deve a uma santa. Suspirou, com ares de quem estivesse apaixonado e apagou a luz do quarto. Saiu do Méier pouco antes das dez, pois ainda pegaria dois amigos antes de seguir para o bar.

“Se dormir antes de eu chegar, saiba que te amo” rascunhou Janalenne num pedaço de papel de pão, que prendeu na geladeira com um ímã dos de farmácia. Vivia sozinha com a filha, numa favela de Cascadura. Mal conseguiam se ver, por conta dos horários discrepantes na luta diária pela sobrevivência. Havia largado o cigarro, e isso a deixava um pouco ansiosa. Enquanto descia o morro, ajeitou a marmita dentro da bolsa, para que não sujasse o casaco. Iria cobrir sua irmã no balcão do bar, pois estava juntando dinheiro para mandar uma ajuda ao resto da família, que havia ficado no interior da Bahia.

“E por hoje é só” disse Everaldo, agradecendo a presença de todos. Já passava de três horas da manhã, e os clientes ainda estavam animadíssimos. Tudo o que ele queria era fechar aquelas portas e deitar ao lado de Analice, sua esposa. Mas desde que comprara o bar, por mais que estivesse sempre lotado e cercado de pessoas de boa índole, o peito ardia em angústia. Tudo o que ele realmente queria era continuar com a barraca de frutas nas feiras-livres que circulam pelos subúrbios. Acordava cedo, sim, mas tinha todo o tempo do mundo para curtir a família e não sofrer com a maldita saudade.

Bonus track: Pato Fu “Antes Que Seja Tarde”

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