Skip to content

Do bem

dezembro 30, 2015

Sandriane sempre foi desconfiada e, de uns tempos para cá, andava debochando de todo e qualquer post com lição de moral que é postado no Facebook. Não que ela fosse avessa aos finais felizes, todo mundo tem direito a seu dia de princesa Disney, mas daí para um vagão inteiro cruzar as pernas em solidariedade a um suposto menino que teria sofrido um suposto comentário homofóbico do suposto pai, “já é muito abuso da minha santa ignorância” como ela costumava enfatizar.

O problema é que o incômodo se transformou em obsessão. Sandriane começou a coletar essas historietas na timeline dos mais de 900 amigos e conhecidos, para publicar em tom de deboche em sua página de “fanfics”. É lógico que, assim como o caso do menino no metrô acabou se revelando um conto, muitas outras histórias também só existiram no reino da imaginação, mas a jovem foi ficando cada vez mais paranoica, a ponto de duvidar da própria mãe.

Em poucos dias, sua página acabou recebendo mais de trezentas mil curtidas e ela encontrou um certo conforto nos comentários, que se multiplicavam com uma espantosa velocidade. Eram pessoas que, como Sandriane, já não conseguiam ver credibilidade naqueles relatos onde senhoras aleatórias reagiam aos infortúnios de militares da reserva, tampouco nos questionamentos pouco plausíveis de crianças de seis anos de idade.

O sarcasmo generalizado ganhou forças e o exército da desconfiança liderado pela moça passou a monitorar e difamar qualquer um que postasse qualquer tipo de relato com teor positivo ou catarse. Os comentários, agora inflamados pelos debates entre descrentes e os mais esperançosos, tornaram-se uma viciante arena virtual. Sandriane estava tão satisfeita com todo o sucesso que passou a deixar que seus asseclas cuidassem da página, enquanto ela ia tocar a vida.

Ao sair do prédio para comprar um maço de cigarros, Sandriane escorregou num folhetinho da mãe Dalcira de Inhansã e bateu com a cabeça no canteiro de cacos de mármore que o porteiro havia feito, com o próprio dinheiro, para ornamentar a calçada judiada pelo descaso. O sangue escorria pescoço abaixo, quando um mendigo apareceu para ajudá-la. De sua mochila, ele tirou um kit de primeiros socorros que havia ganhado na véspera do Natal, junto com um prato de sopa e uma muda de roupas limpas.

Ao ouvir os apelos do maltrapilho, uma velhinha apareceu com um copo de água com açúcar, para acalmar os ânimos, enquanto uma enfermeira que passava pelo local tentava acionar o SAMU ao mesmo tempo em que ajudava a estancar o sangramento na fronte de Sandriane. Não tardou para aparecer um menino de seis anos, rechonchudo e com trejeitos afeminados, proferindo palavras de conforto e acalento num português impecável. Sandriane, que não havia levado identidade, balbuciava palavras sem nexo enquanto as lágrimas escorriam pelo seu rosto.

Era meio-dia quando se juntou ao grupo uma famosa travesti da região, que publicou no Twitter um apelo emocionado a todos os telejornais da cidade. Susana Naspolini, que passava ali por perto para cobrir a alegria dos moradores pela rua recém asfaltada, viu a hashtag e chegou em poucos minutos para cobrir aquele momento emocionante de colaboração entre desconhecidos. Com direito a link ao vivo no RJTV, a história de Sandriane espalhou-se e uma multidão acompanhava a espera pelo SAMU.

Dentre os curiosos, alguns seguidores de Sandriane testemunhavam, incrédulos, toda a comoção em torno de sua musa. Ao perceberem que a travesti estava sendo ovacionada por conseguir parar uma ambulância no meio da avenida, além do fato de Sandriane estar cercada pelos clássicos estereótipos das histórias que tanto criticavam, eles não tiveram dúvidas: sua líder cedeu aos encantos da positividade e estava traindo o movimento com a ajuda de benfeitores anônimos.

A decisão foi unânime e Sandriane foi destituída do posto de administradora da página. Aos olhos descrentes daquela comunidade onde somente o cinismo e sarcasmo deveriam ser propagados, ninguém deveria se deixar envolver por tamanha onda de altruísmo. Destruíram toda e qualquer prova de que ela havia fundado a seita virtual do negativismo e seguiram seu culto amargo rumo ao extermínio total de qualquer tipo de empatia.

Sandriane se recobrou do acidente sem qualquer tipo de sequela e parou de fumar. Guardou remorsos pela traição de seus seguidores, até o dia em que soube que estavam se estapeando até mesmo por conta de um simples “bom dia”. Com o peito leve, sentiu-se feliz em ter de volta alguma esperança no futuro e nas pessoas, mesmo que algumas continuem forçando a barra com histórias muito detalhadas e inverossímeis de acontecimentos corriqueiros.

Anúncios
No comments yet

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: