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Escrota

janeiro 26, 2016

Ronalda Cristina finalmente tirou férias. Estava exausta, sem saco para nada. Só queria ficar jogada no sofá, assistindo Netflix, bebendo cerveja e comendo pipoca. O problema era o que fazer com as meninas… estavam as duas em casa, também de férias, e o pai só as pegaria depois do carnaval. Enquanto procurava o isqueiro dentro da bolsa, ela concluiu que esse era o lado ruim da guarda compartilhada. Sentiu-se escrota por alguns minutos, mas passou.

Deixou as meninas jogando videogame e desceu para fumar. A mais nova tinha alergia e a outra estava na fase politizada, então Ronalda tinha que dar uma volta no quarteirão para se entreter com o cigarro. Até pensou em arrumar um cachorro para ter uma desculpa melhor, já que conhecia quase todos os cães da rua e, vez ou outra, brincava que estava levando o maço para passear. Ria sozinha, coitada, da situação patética que estava vivendo.

Voltando para o prédio, percebeu que a escolinha da esquina estava repleta de crianças. Era a tal colônia de férias que as meninas tanto falavam, mas ela não teve paciência de prestar atenção. Olhou pela grade e viu que os pequenos estavam aprontando um inferno lá dentro, felizes que só eles. Piscina, tobogã, pula-pula e nada de aula. Ah, que alívio deveriam sentir os pais ao deixar as crianças ali por uma semana ou duas, né?

Ronalda deixou o cigarro cair da boca e correu para casa. A conversa com as meninas foi tão animada que, em meia hora, elas já estavam matriculadas na tal colônia. Passariam duas semanas lá, enquanto ela fingia estar num cruzeiro rumo a Fortaleza. Nessa hora, ela agradeceu aos céus por saber mexer no Photoshop: fez algumas montagens toscas de sua viagem fictícia e começou a postar no dia seguinte.

Com a despensa abarrotada de salgadinhos, cerveja e maços de cigarro, Ronalda trancou a porta, guardou a chave, ligou o ar condicionado e se jogou no sofá. Nas duas semanas que passou sozinha, ela colocou todas as séries em dia e engordou (feliz da vida) quase quatro quilos. Ela não teve remorso algum de ter feito o que fez, exceto por ter esquecido de inventar um affair para causar inveja nas amigas do trabalho. No fim das contas, ela concluiu que era mesmo uma escrota e gargalhou sozinha.

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