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Dona Gleide

março 9, 2016

Depois de anos trabalhando honestamente, Dona Gleide sucumbiu à tentação. Sempre foi uma diarista muito respeitosa e nunca cometeu deslize algum nos lares em que já trabalhou. Naquela tarde, porém, estava limpando as janelas do apartamento de Seu Rui quando bateu uma vontade louca de provar um pouco do tal absinto, verdinho e cristalino, que jazia inerte há meses naquela elegantíssima garrafa decorada. Com a porta trancada, ela sacou uma tacinha da cristaleira e se serviu.

A rotunda senhora jogou-se no sofá e apreciou seu aroma, relembrando os tempos em que chupava drops de anis ao sair da escola. Foi, aos poucos, tomando coragem para beber mais um pouco, até que ouviu um molho de chaves tilintando pelo corredor dos elevadores. Num único gole, mandou para dentro toda a tacinha e sumiu com as evidências. Por sorte, era só o vizinho do lado chegando do passeio com seu casal de pinschers, e ela respirou aliviada. Minutos depois, uma onda de calor subiu-lhe as pernas, causando cócegas em suas vergonhas.

Foi uma sensação tão gostosa, que ela chegou a se tremer todinha. Dona Gleide ficou namorando a garrafa de absinto e lá se foi mais uma dose. Seu Rui, que vivia sozinho, nem notaria o desfalque. Ela lavou a cozinha, ganhou dois goles. Limpou o banheiro, bebeu um pouco mais. Passou a roupa e deu uma provadinha. Já estava de banho tomado, antes de ir embora, quando o patrão avisou que só voltaria no sábado. Sem titubear, ela resolveu dar uma última investida e acabou servindo a garrafa inteira. Sim, ela era uma mulher guerreira como Clara Nunes e não se deixou abater.

Foi uma noite de delírios e risadas solitárias até que, enfim, amanheceu.  Desesperada, Dona Gleide ficou tentando imaginar como disfarçaria sua traquinagem. Tentou misturar desinfetante com álcool, mas ficou turvo. Perfume quase não tinha. O listerine era de laranja e até o detergente era de outra cor. Estava quase se rendendo ao fracasso quando se lembrou de um truque, inventado por sua neta. Desceu correndo as escadas e foi até o armarinho.

Com uma canetinha hidrocor, tingiu meio litro de álcool etílico e acrescentou três drops que carregava na bolsa. Agitou a mistura por algum tempo e deu-se a mágica: um líquido verde e aromático, capaz de enganar até o mais chato dos clientes. Já suando, Dona Gleide tratou de encher a garrafa de absinto e deu no pé, antes que o porteiro a visse por lá. Meses se passaram e Seu Rui sequer tocou na garrafa. O abuso da diarista nunca foi descoberto, mas ela ao menos teve assunto para uma tarde inteira de carteado com suas amigas do Colubandê.

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