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Demência Progressiva

fevereiro 16, 2017

Edmunda não sentia a fricção de um pênis dentro de sua vagina há quase trinta anos, desde que sua filha mais nova nasceu. Erivelto, seu marido, parece ter perdido o gosto por ela, ou ficou impotente mesmo, não se sabe. E a vida da mulher foi ficando cada vez mais amarga, triste e cheia de demência. Até que um dia ela surtou, e começou a falar sozinha pelos cantos.

Quando seu segundo neto nasceu, a louca começou a ter alguns surtos psicóticos, descontando toda sua ira na filha do meio, Rosália, dizendo que a maldita não servia nem para lhe dar netinhos. Isso foi o suficiente para que Edmunda tornasse a vida dela num inferno. Desde minhocas nas garrafas de água e terra de cemitério nas fronhas, até bosta de cachorro espalhada pelo sofá: a velha não deixava a coitada em paz.

Numa certa noite, foi encontrada pelo genro, completamente nua, plantando bananeira na cozinha enquanto comia os peixinhos que havia tirado do aquário. Ao ser questionada, disse estar “louca do cu”. Depois de se reunirem, as três filhas decidiram internar a insana num sanatório, temendo que a situação ficasse ainda pior. Sem reagir, ela foi carregada pelos para-médicos até a ambulância, onde foi levemente sedada, como medida de segurança.

Três anos depois, os psiquiatras determinaram que Edmunda havia se recuperado de seus surtos psicóticos, e assinaram um atestado de alta. Finalmente, ela estaria livre para conhecer os outros netinhos que haviam nascido depois de sua internação. Um pouco diferente do que costumava ser, aos poucos ela foi se reintegrando à sociedade. Mostrou-se solidária, inclusive, ao saber que a Rosália não poderia engravidar.

E foi num calorento domingo de Janeiro que Edmunda decidiu mostrar o quanto estava arrependida por tudo o que havia feito de mal para a filha do meio. Chamou todos os seus netinhos, e os carregou para o jardim de sua casa, com a desculpa de que iria mostrar a eles como se colhe acerolas. Mandou as crianças fecharem os olhos, beberem um pouco de refresco e colocarem as mãozinhas para trás. Ao perceber que não seria interrompida por ninguém, Edmunda arriou as calças…

Duas horas depois, seu marido a encontrou desmaiada em cima das margaridas, rodeada pelos seis netinhos, mortos, roxos, sufocados. Desesperado, Erivelto chamou por socorro, e foi prontamente atendido pelas filhas, que entraram em choque ao ver tal cena. Sem saber o que fazer, ligaram para os bombeiros, e esperaram a chagada de uma viatura. Rosália, ajoelhada, batia com a cabeça no chão.

Levando em consideração que o netinho mais velho ainda estava deitado no meio de suas pernas, não houve dúvida em se concluir que Edmunda havia sufocado todas as crianças, sedadas com alguma droga misturada no refresco, enfiando suas cabeças dentro da própria vagina, uma a uma. Revoltados, os bombeiros se recusaram a prestar socorro à velha, deixando-a ao relento.

Como a própria alegou insanidade temporária, foi condenada a viver sedada numa cela do manicômio municipal, até que fosse possível haver um julgamento justo. A filha do meio, traumatizada pela cena no jardim, separou-se do marido e foi morar numa comunidade evangélica, em algum lugar de Brasília. As mães das crianças mortas tornaram-se ativistas do movimento em prol da pena de morte para crimes hediondos. E Erivelto, o marido da demente, finalmente pôde assumir seu caso de trinta anos com o dono da quitanda, que ficava logo na esquina, e vendia o frango-cambalhota mais gostoso do bairro.

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