O gigante acordou?
Gumercino encarou a cartolina branca por mais de uma hora, sem sucesso. Não conseguia bolar algo bacana para escrever. Pensou em piadinhas, trocadilhos, mas nada soava tão genial quanto o que ele estava vendo nas redes sociais. A Avenida Presidente Vargas já estava tomada de manifestantes, e ele à beira de um colapso criativo. Não queria algo simplório, tinha que ser um estrondo: o cartaz mais comentado do protesto. Abriu o Instagram, e viu várias cartolinas estampadas com tiradas ótimas. No Facebook, a mesma coisa. Acabou não fazendo nada. Assistiu tudo pela TV, e ainda reclamou que não teve novela.
O gigante acordou, mas ainda está com muito sono. Deixou o despertador na função soneca, e vai dormir mais um pouquinho.
Um dia passa
Adevilson e Rolândya romperam logo após o dia dos namorados, quando ele descobriu que a garota era canhota. Estavam juntos há apenas quinze dias, mas o rapaz nunca havia notado que ela usava a mão esquerda para fazer qualquer coisa. O lance dos cotovelos esbarrando durante o jantar foi a gota d’água, com o agravante de terem pedido a famosa sopa de mariscos do Choppinho de Olaria. Uma pena que não tenham pensado em, simplesmente, trocar de lugar. Agora estão no Facebook compartilhando montagens de recalque. Um dia passa.
Café e água salgada
Se ainda não conhece a saga de Dona Eneida, leia aqui os contos anteriores.
A casa no Cachambi ficou grande demais para Dona Eneida, que fora abandonada por todos. Os filhos foram morar com o seu ex-marido no sítio de Imbariê. Rosália, a empregada, sumiu sem aviso… e até a afilhada não aparecia mais por lá. Macarronada? Omelete? Bife com batata-frita? Purê de berinjela? Salpicão? Ela poderia fazer o que bem quisesse para o almoço, que ainda sobraria para o jantar (e quiçá para o resto da semana), mas não havia mais dinheiro. Só dava para comer pão com ovo.
Desde que as lagostas pararam de subir pelo ralo, sua vida entrou numa espiral de miséria. O gato fugiu, o cachorro morreu, as paredes estavam descascando e a área de serviço ainda estava destroçada. Dona Eneida ainda sonhava com os dias de fama, quando foi convidada para cozinhar com Ana Maria Braga, participou de debates com Sonia Abrão, foi convidada para a Dança dos Famosos e até fez ponta num vídeo de Luan Santana. Depois disso, o mundo a esqueceu.
Pois bem… Lá estava ela, curtindo o amargo ostracismo, enquanto a água fervia. Pelo menos ainda tinha café. A voz de Elizeth Cardoso escapava do rádio, deixando a tarde mais melancólica e saudosa. A saudade batia forte naquele peito sufocado, o nó na garganta só fazia aumentar, e Dona Eneida debulhou-se em lágrimas. Depois tocou “Bandeira Branca”, com Dalva de Oliveira, e o chão pareceu ruir…
Cansada e sonolenta, Dona Eneida nem percebeu que a casa estava afundando, silenciosamente, para dentro da terra. O Cachambi também não notou, e no fim da tarde havia um endereço a menos na Rua Honório. Ficou um buraco, onde não se via fim, não se via nada. Canos e fios brotavam da terra, assim como as raízes da amendoeira que, pouco a pouco, destruíam a calçada.
…
Dona Eneida acordou com água batendo no queixo, na mais completa escuridão. Frio congelando o pouco ar que restava. Com um pouco de esforço, conseguiu subir na pia, onde alcançou o pote com velas e fósforos, que ficava sobre o armário. A luz era fraca, mas suficiente para mostrar que sua casa não estava mais onde deveria. A vela apagou, e então começaram os estalos. Pode parecer estranho, mas ela não se desesperou. Sua consciência passou a funcionar no reverso, depois espalhou-se para todos os lados.
Lagostas surgiram, novamente, entrando pelas frestas. Eram milhares, e eram avermelhadas. Cobriram todo o corpo de Dona Eneida, assim como tudo que havia ao seu redor. Mais estalos, dessa vez mais fortes. Ferro se contorcendo, concreto dissolvido. A água subia cada vez mais, salgada, fervilhando. O pinguim de porcelana boiava desesperadamente, enquanto tudo era compactado, e então acabou. Não havia mais nada, a não ser a mão de Cthulhu, convidando-a para se tornar sereia.
As lagostas pareciam aplaudir. Não se sabe, ao certo.
Fabulosas Biografias Curtas [Fascículo 6 – Eduardo]
Eduardo tem a boca pequena, e por isso não é de falar muito. Só dá alguma opinião se o assunto for muito pertinente, e se tiver certeza de que todos concordarão com seu posicionamento . Fora isso, vive trancado em seu mundinho, e gosta muito de tudo isso. Seu sonho é comer um x-tudo, mas por enquanto só dá para pedir nuggets. A vida tem dessas coisas…
Fabulosas Biografias Curtas [Fascículo 5 – Getúlio]
As coisas não andavam nada bem. Getúlio saiu para comprar cigarros, mas voltou. A esposa suspirou, aliviada. É que ela tinha pavor de perdê-lo. Como faria para pagar as contas, manter aquele enorme apartamento na Tijuca? Quarenta e sete anos de casados, já não há mais amor… só indiferença. Ela jantava com o prato no colo, diante do sofá, enquanto ele lia na internet que me mergulhar o cigarro na acetona dava barato. Resolveu se aventurar, e esse foi o melhor dia de sua vida.
Fabulosas Biografias Curtas [Fascículo 4 – Rosalba]
Rosalba era tão patética que acabou levando desaforo pra casa e – pasmem – se apaixonou por ele. Daí casaram, tiveram filhos, mudaram para um apartamento menor, cancelaram tv a cabo e, desde então, o jantar se resume a arroz com sardinha em lata. Ele diz que não é feliz, mas solta um risinho bobo quando lembra que sábado tem Zorra Total.
Fabulosas Biografias Curtas [Fascículo 3 – Hoswaldo]
Hoswaldo fez um cursinho de informática à distância, conseguiu consertar sozinho um computador e, assim, reuniu coragem para pedir demissão do McDonalds. O problema é que, agora, não consegue mais arrumar emprego. Ele não entende porque é dispensando, toda vez que vai fazer um teste, logo depois de clicar no ícone do Internet Explorer.
Fabulosas Biografias Curtas [Fascículo 2 – Sabiana]
Sabiana desistiu de ser católica. Daí ela colocou seu vestido mais justinho e seguiu até a igreja onde foi batizada para preencher o formulário da apostasia. O padre tentou demovê-la da ideia, afirmando que sua alma seria barrada na lista vip do paraíso, e depois queimaria no enxofre do inferno, renegada, até que fosse currada ininterruptamente pelos maiores demônios, numa orgia repleta de depravação… De olhos fechados, mordiscando o lábio inferior, ela suplicou: “Corre com essa papelada!”
Fabulosas Biografias Curtas [Fascículo 1 – Adenusa]
Adenusa sempre será lembrada por comer grandes porções de gengibre em conserva antes de dormir. Esse hábito extravagante surgiu depois que ela tomou um pé na bunda de Matsuo, um japonês mequetrefe que conhecera em Madureira. O romance durou pouco, mas foi intenso. Amigos mais próximos afirmam que a especiaria foi a única coisa que a impediu de se suicidar, já que lembrava o cheiro das camisetas suadas do amante. É realmente uma pena que a jovem tenha morrido com um Menthos de tuti-frutti entalado na garganta, já que seu sabor favorito era de cereja.
Perspectivas indiferentes
– Amor, você viu que picharam nosso muro?
– É grafite, Marcélia. Arte urbana. Tem problema não.
– Não, Heterogildo. É pichação, e daquelas brabas!
– Passei por lá, agorinha mesmo, e não vi nada demais. Deixa quieto!
– Mas… o que vão pensar as visitas, homem?
– Que temos um muro lindamente ilustrado.
– Ah, na Zona Sul isso não funciona assim, não…
– Pois é. Lá eles pagam para ter o muro grafitado, Marcélia. Agora deixa eu acabar essa cruzadinha.