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Parágrafos Soltos de Contos Inacabados [Pt 05]

julho 12, 2016

[…] e sabia que existem pessoas que nascem sorrindo, vivem fingindo e morrem mentindo. Rosalba era tão patética que levou desaforo pra casa e acabou se apaixonando por ele. Daí casaram, tiveram filhos, mudaram para um apartamento menor, cancelaram a Net e, desde então, o jantar se resume a arroz com sardinha em lata. Ela diz que ainda não é feliz, mas solta um risinho bobo quando lembra que água e vento são meio sustento. Foi aí que ela deu de ombros e viu um envelope vermelho entrando por baixo da porta […]

Achocolatado

junho 30, 2016

Toda manhã, quando entra na padaria que fica na esquina da Rua Dionísio com a Rua Jaci, Neuzinha apoia a bolsa sobre a prateleira de biscoitos, inclina o corpo sobre o balcão e pede um achocolatado pelando para o cafuçu de olhos verdes. Ela se recusa a pedir um Nescau ou um Toddy:  gosta mesmo é de falar “a-cho-co-la-ta-do”, com todo o chiado que sua carioquice suburbana permite. Adanette, moça do caixa, morre de ciúmes e jura de pés juntos que a cliente está dando em cima do servente, mas a verdade é outra: o tesão de Neuzinha é segurar aquele copo quente enquanto espera o 679 (Méier-Grotão), só esperando o dia em que terá coragem de derramá-lo sobre a cobradora que ousou soltar spoiler do Casamento Vermelho de Game of Thrones, há uns alguns anos. Sim, ela é vingativa, mas também é meio cagona.

No elevador, pelo corredor…

maio 5, 2016

Depois de ter batido pernas por toda Madureira, Jaymin chegou em casa munido de quinze sacolas e dois embrulhos. Além de ter dado um belo trato nas melenas, ele fez as unhas e também caprichou na depilação. Agora que estava trabalhando numa sauna de luxo da zona sul, o delicado mocinho precisa ousar mais no visual e causar impacto com sua produção.

Engana-se quem pensa que, por ser uma pintosa coquete, Jaymin só pensasse em futilidades. Em meio a tantas plumas e paetês, sua sala de estar é adornada por uma suntuosa estante de mogno, abarrotada de clássicos da literatura brasileira. Seus livros favoritos são os de Nelson Rodrigues, logicamente.

Jaymin é um orgulhoso morador do subúrbio e não deixa que ninguém o derrube do salto por morar fora do eixo Copacabana-Leblon.  Por conta disso, já saiu no tapa com três drags e em todas as ocasiões saiu sem um arranhão, tamanha sua agilidade. Estava quase na hora de ir para o trabalho, então ele fumou um último cigarro enquanto ouvia o novo CD da Beyoncé, debruçado no parapeito da janela.

Jaymin deu uma retocada no rímel, pegou a Louis Vitton do Paraguai e calçou o Croc azul-celeste. Saiu andando pelo corredor se sentindo a própria Natalie Portman. Por dentro, espumava de vontade de beber um refrigerante e comer uma coxinha daquelas bem gordurosas, mas precisava manter a forma e silhueta na mais perfeita harmonia. Vai que um dia aparece um gringo que o leve para a Europa?

Não esperou muito pelo elevador que, para seu deleite, chegou vazio. E quando a porta já estava quase fechando, ele escutou o apelo de uma xavasca para segurar o elevador. Como estava num dia de incomum simpatia pelo ser humano, esperou a menina, segurando gentilmente a porta. Pelo barulho que ecoava até o fundo do corredor do 13º andar, percebeu que ela estava usando salto agulha bico fino. Seu perfume chegou antes, adocicado e exageradamente popular – Avon, Natura ou Turma da Mônica, Jaymin não sabia dizer…

Toda vestida de preto, a loira entrou ofegante no elevador, agradecendo sua paciência em esperá-la. Jaymin acenou com a cabeça, aproveitando para dar uma averiguada no modelito da criatura… discretamente, por trás de meus óculos espelhados da D&G. Ela, então, começou um diálogo inusitado:

Mulher: – Estou bonita? [fazendo uma voz doce, com biquinho]

Jaymin: – Sim, está linda. [sendo ironicamente sincero]

Mulher: – Estou cheirosa? [ levantando o cabelo e mostrando a nuca]

Jaymin: – Seu perfume é bem marcante. O fixador deve ser bom. [poupando detalhes sobre a qualidade]

Mulher: – Ganhei ontem. Já está na metade. [se achando a poderosa]

Jaymin: – Eu sou meio alérgico. Prefiro os que não tem cheiro forte. [só usava CK One comprado em doze prestações sem juros]

Mulher: – Estou gostosa? Fala a verdade… [colocando o dedinho na boca]

Jaymin: – Está sim. Tomara que faça muito sucesso hoje. [todo contorcido para não gargalhar, jogando a cabeça para trás]

Mulher: – Está dizendo isso porque gostaria de me comer? [cinco segundos de silêncio depois]

Jaymin: – De forma alguma. Sou vinhado e tenho um bom senso estético. [sem desmunhecar, sem falsete na voz e escondendo o Manolo]

Mulher: – Ai, a-d-o-i-r-o-v-i-a-d-o. Vocês são muito inteligentes. [dando um tapinha nas ancas]

Jaymin: – Vai numa festa? [já desconfiando da resposta]

Mulher: – Não, vou encontrar um conhecido. [também conhecido como cliente fixo]

Jaymin: – E o maridão, ficou em casa vendo Game of Thrones? [dando de ombros]

Mulher: – Não, fofo. E eu lá sou mulher de ficar presa a um homem só? Deus me livre! [mostrando todos os dentes da boca, num sorriso largo]

Saíram do elevador e Jaymin abriu a porta do prédio para ela, que se despediu com um beijinho no rosto e uma mão sacana apertando sua bunda. Rodada que devia ser, jogou-se dentro de um taxi e seguiu na direção da Zona Sul. Jaymin até pensou me pedir uma carona, mas achou melhor ir de ônibus, mesmo. Parou num boteco e bebeu uma Pepsi Light em homenagem àquela garota, que com todos os seus desvios de moral, ainda conseguia ser mais honesta que muitos marmanjos casados que entrariam na sauna, naquela noite.

Filho a varejo

abril 27, 2016

Querido Rogério,

Eu estava voltando de uma reunião com os donos de um novo empreendimento quando, já na altura de Madureira, parei num sinal vermelho e vi uma jovem sentada no ponto de ônibus, com cinco crianças a tiracolo. Brincando, perguntei se poderia ficar com alguma delas. Para minha surpresa, ela ofereceu o mais velho, que não ia bem na escola e seu único dom era comer, sozinho, um pote de margarina por dia.

Imaginando que ela entendera se tratar de uma brincadeira, recusei a oferta e apontei para a menina, que vestia um macacão encardido, e disse que gostaria de ficar com ela. Sem a menor cerimonia, ela levantou- se do banco e veio me entregar a criança, já avisando que apesar da aparência frágil e delicada, aquela pequena era um estorvo e só fazia chorar madrugada adentro.

Perplexa, tentei desfazer o mal entendido, dizendo tratar-se apenas de uma brincadeira, mas ela não aceitava devolução. Mandou que eu levasse a menina, e ainda me deu o menorzinho, que sequer tinha largado o peito. Apavorada com a situação, pensei em ligar para a policia, mas cadê que a Tim pegava por aquelas bandas? Quando dei por mim, ela já tinha enfiado todas as crianças no carro e desapareceu.

Sem alternativa, dirigi até uma delegacia e descobri que estavam em greve, por falta de pagamento. As crianças estavam aos prantos no banco de trás e um desespero me subiu pela espinha. Não teve jeito… eu trouxe todos aqui para casa. Todos já estão de banho tomado, assistindo um desenho qualquer na Netflix. O maiorzinho já aprendeu a mexer no iPad e até perguntou se eu era sua nova mãe… confesso que chorei escondida na área de serviço, mas foi de alegria.

Então é isso, querido. Já está decidido! Quando você chegar em casa, hoje à noite, terá uma família completa. Se não for te tirar muito do caminho, tem como passar no mercado e trazer uns cinco potes de margarina (pode ser Becel) e dois pacotes de fraldas descartáveis da Turma da Mônica, tamanho M? A menorzinha é linda, mas parece uma fábrica de churros. (Risos)

Beijos.

Te amo.

Nazareth.

Dona Gleide

março 9, 2016

Depois de anos trabalhando honestamente, Dona Gleide sucumbiu à tentação. Sempre foi uma diarista muito respeitosa e nunca cometeu deslize algum nos lares em que já trabalhou. Naquela tarde, porém, estava limpando as janelas do apartamento de Seu Rui quando bateu uma vontade louca de provar um pouco do tal absinto, verdinho e cristalino, que jazia inerte há meses naquela elegantíssima garrafa decorada. Com a porta trancada, ela sacou uma tacinha da cristaleira e se serviu.

A rotunda senhora jogou-se no sofá e apreciou seu aroma, relembrando os tempos em que chupava drops de anis ao sair da escola. Foi, aos poucos, tomando coragem para beber mais um pouco, até que ouviu um molho de chaves tilintando pelo corredor dos elevadores. Num único gole, mandou para dentro toda a tacinha e sumiu com as evidências. Por sorte, era só o vizinho do lado chegando do passeio com seu casal de pinschers, e ela respirou aliviada. Minutos depois, uma onda de calor subiu-lhe as pernas, causando cócegas em suas vergonhas.

Foi uma sensação tão gostosa, que ela chegou a se tremer todinha. Dona Gleide ficou namorando a garrafa de absinto e lá se foi mais uma dose. Seu Rui, que vivia sozinho, nem notaria o desfalque. Ela lavou a cozinha, ganhou dois goles. Limpou o banheiro, bebeu um pouco mais. Passou a roupa e deu uma provadinha. Já estava de banho tomado, antes de ir embora, quando o patrão avisou que só voltaria no sábado. Sem titubear, ela resolveu dar uma última investida e acabou servindo a garrafa inteira. Sim, ela era uma mulher guerreira como Clara Nunes e não se deixou abater.

Foi uma noite de delírios e risadas solitárias até que, enfim, amanheceu.  Desesperada, Dona Gleide ficou tentando imaginar como disfarçaria sua traquinagem. Tentou misturar desinfetante com álcool, mas ficou turvo. Perfume quase não tinha. O listerine era de laranja e até o detergente era de outra cor. Estava quase se rendendo ao fracasso quando se lembrou de um truque, inventado por sua neta. Desceu correndo as escadas e foi até o armarinho.

Com uma canetinha hidrocor, tingiu meio litro de álcool etílico e acrescentou três drops que carregava na bolsa. Agitou a mistura por algum tempo e deu-se a mágica: um líquido verde e aromático, capaz de enganar até o mais chato dos clientes. Já suando, Dona Gleide tratou de encher a garrafa de absinto e deu no pé, antes que o porteiro a visse por lá. Meses se passaram e Seu Rui sequer tocou na garrafa. O abuso da diarista nunca foi descoberto, mas ela ao menos teve assunto para uma tarde inteira de carteado com suas amigas do Colubandê.

Parágrafos Soltos de Contos Inacabados [Pt 04]

fevereiro 28, 2016

[…] Claudenise estava toda boba, e nem cabia dentro de si: ganhou um echarpe da patroa. Ansiosa para se exibir, ficou contando os minutos para o fim do expediente. Tomou banho com sabão de coco, para a pele ficar mais brilhosa, e passou Leite de Rosas, para ficar saborosa. Mesmo com o calor que torrava o Leblon, ela saiu com o echarpe enrolado no pescoço, rumo à Central. Foi se gabando o caminho todo, e quando saltou do metrô, avistou a escada rolante: era o seu momento de glória. […]

Escrota

janeiro 26, 2016

Ronalda Cristina finalmente tirou férias. Estava exausta, sem saco para nada. Só queria ficar jogada no sofá, assistindo Netflix, bebendo cerveja e comendo pipoca. O problema era o que fazer com as meninas… estavam as duas em casa, também de férias, e o pai só as pegaria depois do carnaval. Enquanto procurava o isqueiro dentro da bolsa, ela concluiu que esse era o lado ruim da guarda compartilhada. Sentiu-se escrota por alguns minutos, mas passou.

Deixou as meninas jogando videogame e desceu para fumar. A mais nova tinha alergia e a outra estava na fase politizada, então Ronalda tinha que dar uma volta no quarteirão para se entreter com o cigarro. Até pensou em arrumar um cachorro para ter uma desculpa melhor, já que conhecia quase todos os cães da rua e, vez ou outra, brincava que estava levando o maço para passear. Ria sozinha, coitada, da situação patética que estava vivendo.

Voltando para o prédio, percebeu que a escolinha da esquina estava repleta de crianças. Era a tal colônia de férias que as meninas tanto falavam, mas ela não teve paciência de prestar atenção. Olhou pela grade e viu que os pequenos estavam aprontando um inferno lá dentro, felizes que só eles. Piscina, tobogã, pula-pula e nada de aula. Ah, que alívio deveriam sentir os pais ao deixar as crianças ali por uma semana ou duas, né?

Ronalda deixou o cigarro cair da boca e correu para casa. A conversa com as meninas foi tão animada que, em meia hora, elas já estavam matriculadas na tal colônia. Passariam duas semanas lá, enquanto ela fingia estar num cruzeiro rumo a Fortaleza. Nessa hora, ela agradeceu aos céus por saber mexer no Photoshop: fez algumas montagens toscas de sua viagem fictícia e começou a postar no dia seguinte.

Com a despensa abarrotada de salgadinhos, cerveja e maços de cigarro, Ronalda trancou a porta, guardou a chave, ligou o ar condicionado e se jogou no sofá. Nas duas semanas que passou sozinha, ela colocou todas as séries em dia e engordou (feliz da vida) quase quatro quilos. Ela não teve remorso algum de ter feito o que fez, exceto por ter esquecido de inventar um affair para causar inveja nas amigas do trabalho. No fim das contas, ela concluiu que era mesmo uma escrota e gargalhou sozinha.

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